A Amazônia não cabe em um único olhar. Nasci nela e sei disso!

Quem nasce nela sabe disso. Quem dedicou décadas a entrevistar professores, pesquisadores, doutores e tantas vozes que passaram por estúdios de TV e rádio ao longo de 35 anos de jornalismo também sabe. A floresta é grande demais para ser resumida em problema. E inteligente demais para ser tratada apenas como desafio. Senti isso na pele. E ainda sinto na alma até hoje.

Foi com esse olhar que o Atlas ODS Amazônia chegou a Brasília.

Entre os dias 30 de junho e 2 de julho, a capital federal recebeu a 1ª Conferência Nacional dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. E entre os projetos presentes estava uma iniciativa que nasceu dentro da Universidade Federal do Amazonas, a Ufam, e que monitora, com rigor científico, os indicadores dos ODS em 772 municípios da Amazônia Legal.

A presença do Atlas não foi protocolar. Foi simbólica no sentido mais profundo da palavra.

Porque levar um projeto amazônico a uma conferência nacional sobre desenvolvimento sustentável é afirmar, em voz alta, que a Amazônia não precisa apenas receber soluções prontas vindas de fora. Ela pode, e deve, produzir conhecimento, apresentar diagnósticos e indicar caminhos para o seu próprio futuro.

O que é o Atlas ODS Amazônia

A plataforma reúne dados territoriais organizados por eixos temáticos e permite observar, com precisão, as desigualdades, potencialidades e necessidades de cada região da Amazônia Legal. Saúde, educação, saneamento, mobilidade, segurança alimentar, conectividade, renda, proteção ambiental, desenvolvimento econômico: tudo mapeado município a município.

A mensagem dos integrantes do Atlas é direta: não existe política pública eficiente sem diagnóstico, sem informação qualificada e sem compreensão das diferentes realidades que formam esse território.

E a Amazônia, é bom lembrar, não é homogênea. Cada município possui características próprias, desafios específicos e vocações que precisam ser consideradas. Não é possível aplicar a mesma solução para todos os territórios. É preciso mapear, entender e planejar.

O Custo Amazônia e o poder dos dados

Quem conhece a região sabe o que significa o chamado Custo Amazônia. As longas distâncias, a dependência dos rios, a dificuldade de acesso a comunidades, os altos custos de transporte e a complexidade da infraestrutura tornam qualquer ação mais desafiadora, e mais cara.

Mas esse custo pode ser reduzido quando existe planejamento prévio, orçamento adequado e leitura territorial. Dados organizados por região e por características locais permitem antecipar demandas, identificar gargalos e direcionar recursos com mais eficiência.Não se trata de ignorar a especificidade da Amazônia. Trata-se de reconhecer que políticas públicas mais efetivas são aquelas construídas a partir da realidade de quem vive no território.

Em Brasília

Durante a conferência, o coordenador técnico do Atlas ODS Amazônia, professor Danilo Egle Santos Barbosa, da Faculdade de Informação e Comunicação da Ufam, apresentou a plataforma de indicadores e participou, como observador, dos grupos de trabalho que discutiram propostas para orientar as prioridades nacionais de desenvolvimento sustentável.

O encontro reuniu representantes de governos, universidades, sociedade civil, organismos internacionais e setor privado. Segundo a Secretaria-Geral da Presidência da República, o processo mobilizou mais de 31 mil participantes em etapas preparatórias realizadas em todo o país. As propostas consolidadas serão encaminhadas como diretrizes para políticas ligadas à Agenda 2030, à redução das desigualdades e ao desenvolvimento sustentável.

O Atlas também levou exemplares do livro publicado em 2025, ampliando a circulação de informações produzidas na região entre pesquisadores, gestores e representantes de instituições públicas.

O que isso significa para o Amazonas

Para o estado que enfrenta desafios históricos relacionados à logística, infraestrutura, desigualdade regional e acesso a serviços públicos, e que, ao mesmo tempo, abriga uma das maiores riquezas ambientais, culturais e humanas do planeta, esse reconhecimento tem peso.

Planejar a Amazônia exige enxergá-la por inteiro. Percebê-la para além de si mesma, mas sem apagar as particularidades de cada município, cada comunidade ribeirinha, cada território indígena, cada área urbana e cada região produtiva.

O futuro da floresta passa pela floresta em pé, pela geração de renda, pela educação, pela ciência, pela inovação e por políticas públicas capazes de chegar a quem mais precisa.

E esse futuro começa com uma pergunta simples, mas decisiva:Quais dados temos sobre o território que queremos transformar?

O Atlas ODS Amazônia ajuda a responder. E, ao fazer isso, ajuda a mostrar que a Amazônia pode e deve ocupar o lugar de protagonista nas decisões sobre o Brasil e sobre o mundo.

 

Fonte e fotos: Agência Rhisa

Esta coluna, “Soul do Norte, por Tatiana Sobreira”, é publicada na Jovem Pan News Manaus e Vitória

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