Resenha esportiva sobre a derrota do Brasil na Copa 2026*

A eliminação para a Noruega escancarou uma ferida que já vinha sendo aberta há anos. O torcedor brasileiro não sofre apenas pela derrota, mas pela sensação de não reconhecer mais a Seleção.

Dizem que certas coisas são impossíveis de desaprender, como andar de bicicleta. Parece clichê falar isso sobre a Seleção Brasileira a essa altura do campeonato, até porque, esse discurso vem se repetindo incessantemente desde 2006. Porém, depois de três Copas do Mundo decepcionantes, e de uma especialmente traumática em 2014, é impossível não sentir uma dor diferente ao presenciar a pior campanha brasileira em um Mundial desde 1990.

O que parece ter se perdido não foi apenas a capacidade de vencer, e sim algo muito mais difícil de definir: a maneira de jogar que fez o mundo inteiro reconhecer uma seleção brasileira antes mesmo do apito inicial.

Após o 7 a 1 contra a Alemanha, o 2 a 1 diante da Bélgica em 2018 e a dolorosa disputa de pênaltis contra a Croácia em 2022, a derrota para a Noruega nas oitavas de final da Copa de 2026 tem um gosto diferente. Mais amargo do que o comum quando se trata de desacreditar do nosso próprio futebol, coisa que infelizmente já virou rotina em uma nação cujo maior soft power sempre foi o esporte.

Talvez o problema não seja apenas perder. O Brasil sempre perdeu Copas do Mundo. Perdemos em 1982, em 1986, em 1998. A diferença é que antes perdíamos sendo Brasil. Hoje, parece que perdemos tentando jogar como qualquer outra seleção do mundo.

(Foto: Odd Andersen / AFP)

Jogadores novos e promissores, alguns rostos antigos que pareciam ainda ter lenha para queimar, um treinador cujo próprio nome e currículo fazem parte da grife do futebol mundial e uma euforia que não se via há muito tempo em torno da Seleção não foram suficientes para superar o estado atual da CBF e o caótico ciclo que antecedeu esta Copa.

Entre uma troca de gestão que prometia refundar a entidade e quatro treinadores diferentes em apenas um ciclo mundialista, o resultado foi inevitável: contra a Noruega, vimos um bando — e não um coletivo organizado — fraco, desorganizado, inseguro e que, quando não aparentava preguiça, aparentava sentir medo.

E talvez esse seja o maior retrato da decadência do nosso futebol.

O Brasil sempre exportou jogadores, mas havia uma diferença fundamental: exportávamos craques, não adolescentes.

Pelé encantou o mundo depois de virar Pelé no Santos. Zico construiu sua identidade no Flamengo. Sócrates fez história no Corinthians. Romário saiu do Vasco. Ronaldinho brilhou pelo Grêmio. Até Neymar, talvez o último grande representante desse modelo, chegou ao Barcelona aos 21 anos depois de carregar o Santos nas costas.

Agora, nossas maiores promessas deixam o país antes mesmo de viver uma temporada completa como protagonistas. Aprendem o futebol adulto na Europa, crescem em centros de treinamento europeus, absorvem conceitos europeus e passam praticamente toda a carreira dentro de uma cultura futebolística que, por melhor e mais vencedora que seja, nunca foi a nossa.

Fotos: Reprodução

Se todos os nossos melhores jogadores aprendem a jogar futebol longe do Brasil, ainda existe um futebol brasileiro?

Desde o primeiro apito do árbitro, a resposta pareceu dolorosamente clara.

O Brasil jogou sem ritmo, sem precisão, marcado por passes erráticos, decisões equivocadas e finalizações que, quando surgiam, eram completamente desperdiçadas pela insegurança ou pelo individualismo. Chega a ser quase “pecaminoso” escrever sobre a seleção que um dia fez do improviso uma arte e constatar que seus representantes atuais parecem incapazes de jogar com ritmo, suíngue e malícia.

Foi um jogo feio, sem imposição, sem personalidade e sem qualquer traço daquela irreverência que transformou o futebol brasileiro em patrimônio cultural do planeta. Se não fosse pelo tão criticado — e, convenhamos, muitas vezes criticado com razão — Alisson, e pelo gol corretamente anulado da Noruega logo aos três minutos, o desastre poderia ter sido ainda mais humilhante.

Eu sequer consigo pensar nos méritos do literalmente gigante Erling Haaland — e não é por mal ,o rapaz faz jus à reputação que construiu – mas é impossível apagar da memória a decisão inexplicável de entregar a Bruno Guimarães a responsabilidade pelo primeiro pênalti da partida, desperdiçado de forma melancólica; o gol inacreditável perdido por Endrick naquela que talvez tenha sido a melhor oportunidade brasileira em todo o jogo; um Vinícius Júnior completamente perdido, passivo e incapaz de desequilibrar; e um Neymar que, para aqueles que insistiam que ele seria decisivo, entrou apenas para marcar um gol de misericórdia e protagonizar uma patética briga na que pode muito bem ter sido sua despedida das Copas do Mundo.

Foto: Reuters/Caean Couto

Na verdade, passividade talvez seja a palavra que melhor defina esta eliminação.

Uma equipe extremamente passiva, incapaz de sufocar os ataques e contra-ataques da Noruega, que simplesmente permitiu, em diversos momentos, que os noruegueses trabalhassem a bola e ocupassem os espaços com uma facilidade quase constrangedor e, ainda mais grave, abriu exatamente os espaços que jamais poderiam ser concedidos a um atacante como Haaland.

O herói nórdico, dos nossos algozes, fez apenas aquilo que faz melhor: aproveitou passes bem construídos dentro da área e transformou oportunidades em gols — justamente aquilo que faltou ao Brasil durante noventa minutos.

No fim, a eliminação deixa ainda mais explícito um problema que parece ter se tornado crônico. Perdemos títulos, perdemos confiança e, talvez o mais doloroso de tudo, perdemos a nossa identidade. Exportamos nossas maiores promessas cedo demais, deixamos que elas aprendessem a jogar futebol longe de casa e agora nos perguntamos por que nossa seleção já não joga como o mitológico Brasil de tempos atrás.

Não brincamos mais com a bola, não intimidamos mais os adversários, já não dançamos em campo, apenas sobrevivemos. E, para um país que construiu sua imagem diante do mundo sorrindo, improvisando e transformando o futebol em espetáculo, talvez a maior derrota não tenha sido para a Noruega.

Talvez tenha sido para nós mesmos.

(Foto: Odd Andersen / AFP)

 

Por Guilherme Pacheco, da redação da Jovem Pan News Vitória

*Este texto não representa a opinião da Jovem Pan News Vitória

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