O aumento das temperaturas extremas e a intensificação das condições de seca estão atingindo áreas preservadas da Amazônia, inclusive regiões distantes dos principais focos de desmatamento. Um estudo internacional publicado em setembro de 2026 na revista científica Communications Earth & Environment identificou elevação de pelo menos 3,22 °C nas temperaturas máximas extremas durante a estação seca em uma área superior a 700 mil quilômetros quadrados do centro-norte amazônico, entre 1981 e 2023.

A área afetada equivale a cerca de 10% da bacia amazônica e reúne extensas áreas de floresta nativa, savanas naturais, unidades de conservação e territórios indígenas. Os resultados indicam que os extremos climáticos estão avançando em ritmo mais acelerado do que as mudanças observadas nas temperaturas médias da região.

Temperaturas extremas sobem mais rapidamente

De acordo com a pesquisa, a temperatura média anual da Amazônia analisada aumentou aproximadamente 0,21 °C por década. Já as temperaturas máximas extremas durante a estação seca subiram, em média, 0,49 °C por década. Em determinadas áreas do centro-norte, a elevação chegou a pelo menos 0,75 °C por década.

Os pesquisadores ressaltam que o aumento superior a 3,2 °C não representa o aquecimento de toda a Amazônia. O valor corresponde às temperaturas máximas extremas registradas durante a estação seca nas áreas específicas identificadas pelo levantamento.

O estudo reuniu 53 pesquisadores de diferentes instituições e utilizou dados climáticos de alta resolução para analisar as mudanças registradas ao longo de 43 anos. A metodologia permitiu identificar diferenças regionais que podem passar despercebidas quando são consideradas apenas as médias de temperatura de todo o bioma.

Áreas preservadas também estão expostas

Um dos pontos de atenção é a localização das áreas mais afetadas. Parte delas está distante do chamado arco do desmatamento, região que concentra importantes frentes de perda de vegetação nativa na Amazônia.

Segundo os pesquisadores, os resultados indicam que a intensificação dos extremos climáticos não pode ser explicada apenas pelas alterações locais associadas ao desmatamento. As mudanças climáticas globais também são consideradas relevantes, embora as causas específicas da aceleração dos extremos no centro-norte amazônico ainda precisem ser investigadas.

O levantamento também identificou mudanças em indicadores relacionados ao déficit hídrico e à demanda atmosférica por água. Essas condições podem aumentar o estresse sobre a vegetação, especialmente durante períodos prolongados de calor e pouca chuva.

Riscos para a floresta e as populações

O avanço das temperaturas extremas e da seca pode ampliar os riscos de incêndios florestais, mortalidade de árvores e animais e degradação dos ecossistemas. A combinação de calor intenso, baixa disponibilidade de água e vegetação mais vulnerável também pode dificultar a recuperação da floresta após períodos críticos.

Os efeitos não se limitam ao meio ambiente. Comunidades que dependem dos rios para transporte, abastecimento e atividades econômicas podem enfrentar dificuldades durante estiagens severas. A fumaça dos incêndios e as temperaturas elevadas também representam riscos à saúde, enquanto mudanças nas condições ambientais podem afetar a produção de alimentos.

Monitoramento e medidas de adaptação

Os pesquisadores defendem o fortalecimento do monitoramento climático e a adoção de medidas de prevenção e adaptação. Entre as ações destacadas estão o combate ao desmatamento, a prevenção de incêndios florestais e o apoio às populações expostas a períodos extremos de calor e redução dos níveis dos rios.

O estudo não estabelece uma única causa para as mudanças identificadas, mas evidencia que as áreas mais afetadas pelos extremos climáticos nem sempre coincidem com aquelas que apresentam as maiores alterações nas médias de temperatura.

Os resultados reforçam a importância de acompanhar as condições climáticas de forma regionalizada, considerando não apenas o aquecimento médio, mas também os episódios de calor e seca mais intensos, que podem produzir impactos ambientais e sociais significativos.

Para além da Amazônia: tudo conectado!

O estudo indica também que os efeitos dos extremos climáticos na Amazônia não ficam restritos à região Norte. A floresta participa da circulação de umidade que influencia as chuvas em outras partes da América do Sul, inclusive no Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Quando o calor extremo, as secas, as queimadas e o desmatamento afetam a vegetação, podem alterar a evapotranspiração e a reciclagem de umidade, com possíveis consequências para o regime de chuvas, a disponibilidade de água, a agricultura e a geração de energia hidrelétrica em outras regiões. No Espírito Santo e nos demais estados do Sudeste, isso reforça a importância de acompanhar os efeitos sobre os reservatórios, a produção agrícola e o abastecimento, embora o estudo não tenha medido impactos específicos para cada estado.

O alerta ultrapassa as fronteiras brasileiras. A Amazônia integra o sistema climático global, armazenando carbono, regulando fluxos de água e abrigando uma biodiversidade de importância mundial. O avanço do calor extremo e do déficit hídrico em áreas preservadas mostra que nem mesmo regiões distantes dos principais focos de desmatamento estão protegidas dos efeitos das mudanças climáticas. Se a floresta perder parte de sua capacidade de absorver carbono e reciclar umidade, os impactos poderão se estender à estabilidade dos ecossistemas, à produção de alimentos e aos padrões de chuva em diferentes partes do planeta. Por isso, os pesquisadores destacam a necessidade de reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa, combater o desmatamento e fortalecer as medidas de conservação e adaptação climática.

Fontes e imagem: Agência Rhisa; Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE); Embrapa; revista científica Communications Earth & Environment.

Edição: Tatiana Sobreira, redação Jovem Pan News Vitória

Autor