O jornalista e escritor Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pela família e pela Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual ele era membro desde 2015.
Nascido em Além Paraíba, em Minas Gerais, em 1º de junho de 1931, Zuenir construiu uma trajetória de mais de seis décadas na imprensa brasileira. Ao longo da carreira, trabalhou em veículos como Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil e O Globo. A carreira começou ainda nos anos 1950, quando Zuenir trabalhava como arquivista na Tribuna da Imprensa. O contato com a redação abriu caminho para sua atuação como repórter e escritor. Antes disso, ele havia exercido diferentes atividades profissionais e cursado Letras Neolatinas.
“1968” tornou-se uma de suas obras mais conhecidas
Entre os trabalhos que marcaram a trajetória de Zuenir Ventura está “1968: O Ano que Não Terminou”, lançado em 1988. O livro recupera acontecimentos políticos e culturais que marcaram aquele período e se tornou uma referência para a compreensão da sociedade brasileira durante a ditadura militar, onde a sua trajetória profissional de Zuenir também foi atravessada pela ditadura militar. Ele e a jornalista Mary Akiersztejn, sua mulher, foram presos em 1968 e levados ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops), no Rio de Janeiro. Zuenir permaneceu preso por cerca de três meses.
A obra também inspirou a minissérie “Anos Rebeldes”, exibida pela televisão brasileira, ampliando o alcance do trabalho jornalístico produzido pelo escritor.
Zuenir também foi responsável por reportagens e livros que abordaram temas sociais e políticos de diferentes períodos da história recente do país.
Jornalismo sobre a Amazônia e Chico Mendes
Uma das grandes reportagens de sua carreira foi produzida a partir da cobertura do assassinato do seringueiro e ambientalista Chico Mendes, no Acre.
Em 1989, Zuenir esteve no estado para investigar o caso. A série de reportagens “O Acre de Chico Mendes”, publicada pelo Jornal do Brasil, recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo e o Prêmio Vladimir Herzog.
A experiência posteriormente deu origem ao livro “Chico Mendes: Crime e Castigo”, lançado em 2003. A cobertura fez parte da trajetória do jornalista dedicada a temas relacionados à Amazônia e às questões sociais brasileiras.
“Cidade Partida” e a violência urbana
Outro trabalho de destaque foi “Cidade Partida”, publicado em 1994. A obra nasceu da experiência de Zuenir acompanhando a realidade social e a violência no Rio de Janeiro, especialmente após episódios como a chacina de Vigário Geral.
O livro recebeu o Prêmio Jabuti na categoria reportagem e consolidou uma característica presente em boa parte da produção do jornalista: a combinação entre apuração jornalística, observação do cotidiano e narrativa de não ficção.
Entrada na Academia Brasileira de Letras
Zuenir Ventura foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 30 de outubro de 2014, na sucessão de Ariano Suassuna. Ele tomou posse em 6 de março de 2015 e passou a ocupar a Cadeira nº 32.
Em junho deste ano, quando completou 95 anos, a ABL destacou sua trajetória como jornalista e escritor. Meses antes da morte, a instituição também promoveu a exibição do documentário “Mestre Zu”, dedicado à vida e à carreira do jornalista.
Uma carreira entre reportagem, literatura e memória
Ao longo de sua trajetória, Zuenir Ventura transitou entre a reportagem, a crônica e a produção de livros de não ficção. Seus trabalhos abordaram acontecimentos políticos, transformações culturais, desigualdade social, violência urbana e personagens que marcaram a história recente do Brasil.
Com a morte aos 95 anos, o jornalismo brasileiro perde um profissional cuja carreira atravessou diferentes gerações da imprensa e que transformou parte de suas grandes reportagens em livros que permaneceram como registros de períodos importantes da história nacional.
Fontes e foto: Agência Brasil; Academia Brasileira de Letras; informações de veículos de imprensa consultados.
Edição: Tatiana Sobreira, redação Jovem Pan News Vitória







