Aos 38 anos, Yamaguchi Falcão divide a rotina entre o trabalho como motorista de aplicativo e a formação de novos atletas

Medalhista olímpico e um dos principais nomes do boxe capixaba, Yamaguchi Falcão construiu uma trajetória marcada por títulos, viagens internacionais e dez anos defendendo a Seleção Brasileira. Aos 38 anos, o atleta vive uma nova fase da carreira, dividindo o trabalho como motorista de aplicativo com a atuação como treinador e o projeto de formar novos boxeadores.

Em entrevista ao programa De Olho na Cidade, da Jovem Pan News Vitória, apresentado pela jornalista Tatiana Sobreira, Yamaguchi relembrou os primeiros passos no esporte, a saída do Espírito Santo ainda adolescente e os momentos que marcaram sua carreira dentro e fora dos ringues.

Do Espírito Santo para a Seleção Brasileira

Yamaguchi conta que o boxe entrou cedo em sua vida por influência do pai, o também boxeador conhecido como Touro Moreno. O atleta começou a lutar aos 12 anos, mas afirma que já tinha contato com o esporte desde os nove.

Ele é o mais velho entre os filhos homens e diz que o pai depositou nele a expectativa de formar um atleta dentro de casa. A cobrança acabou se transformando em motivação para buscar resultados.

“Meu pai sempre confiou, sempre acreditou, sempre sonhou em ter um atleta dentro de casa. Eu fui o primeiro menino da família e ele sempre apostou em mim.”

Além da preparação esportiva, Yamaguchi afirma que recebeu do pai ensinamentos que levaria para toda a vida, principalmente sobre honestidade.

“Acho que isso foi uma das coisas que ele mais ensinou: ser honesto. A pessoa honesta chega onde quer, sem querer ultrapassar ninguém.”

Aos 14 anos, Yamaguchi deixou o Espírito Santo sozinho para buscar oportunidades no boxe em São Paulo. Segundo ele, o pai conseguiu apenas uma passagem de ônibus e disse que alguém o encontraria na chegada.

A primeira competição veio poucos dias depois. Yamaguchi perdeu a luta para um atleta que fazia parte da seleção olímpica, mas teve uma atuação que chamou a atenção da equipe. O treinador Servílio de Oliveira, primeiro medalhista olímpico do boxe brasileiro, o convidou para treinar.

Depois de algumas semanas de preparação, Yamaguchi teve a oportunidade de enfrentar novamente o mesmo adversário e venceu por 24 a 18. Pouco depois, recebeu o convite para integrar a Seleção Brasileira.

O capixaba permaneceu por dez anos vestindo a camisa do Brasil e acumulou títulos nacionais e internacionais. Segundo ele, foram cinco campeonatos brasileiros e cinco campeonatos paulistas, além de outras conquistas no país.

No exterior, passou por países como Colômbia, Venezuela, Equador, Rússia, Cazaquistão e Marrocos, entre outros.

A medalha olímpica e o reconhecimento internacional

A participação nos Jogos Olímpicos representou um dos pontos altos da carreira. Yamaguchi explicou que a classificação para uma Olimpíada exige uma sequência de resultados e que o processo está longe de ser simples.

Ao recordar a própria trajetória, ele destacou a medalha olímpica como uma conquista que ajudou a quebrar um longo período sem pódios brasileiros no boxe.

“Eu fui lá e quebrei esse tabu.”

Além da medalha olímpica, o boxeador também conquistou uma medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos e participou de competições internacionais desde muito jovem.

Ele lembra, por exemplo, de ter conquistado uma medalha de prata em uma competição em Cuba aos 18 anos, enfrentando atletas de alto nível.

Para Yamaguchi, a quantidade de conquistas acumuladas ao longo da carreira representa uma parte importante de sua história, embora exista uma realização que ainda considera pendente.

O sonho do cinturão mundial

Depois dos Jogos Olímpicos, Yamaguchi decidiu seguir carreira no boxe profissional com o objetivo de conquistar um título mundial. Em 2014, assinou com a Golden Boy Promotions, empresa ligada ao ex-boxeador Oscar De La Hoya.

O capixaba conta que recebeu promessas de grandes oportunidades, mas passou anos esperando uma disputa pelo cinturão mundial.

Segundo ele, diferentes empresários e empresas fizeram previsões sobre quando a oportunidade chegaria, mas as promessas não se concretizaram.

“Promessas, promessas e mais promessas. E isso tendo que viver, tendo que trabalhar.”

Yamaguchi chegou a disputar oito títulos internacionais e afirma ser atualmente um dos brasileiros com maior número de cinturões internacionais. O título mundial, porém, nunca veio.

A espera teve impacto ainda maior porque a principal oportunidade surgiu quando ele já estava aos 35 anos. Para o atleta, a idade muda completamente a preparação e a resposta física de um boxeador.

“Quando você tem 26 anos, a porrada não dói. Quando passa dos 30, ela começa a pesar. Uma hora ela dói.”

O ex-boxeador afirma que, quando chegou a disputar o título, já não era o mesmo atleta de seus melhores anos. Para ele, a falta de oportunidades no momento certo da carreira foi determinante para que o sonho não fosse realizado.

O esporte depois da carreira

Yamaguchi também defendeu a criação de mecanismos de proteção para atletas de alto rendimento depois do fim da carreira esportiva. Segundo ele, muitos atletas dedicam a infância e a juventude integralmente ao esporte e acabam chegando à vida adulta sem a mesma estrutura profissional de outras áreas.

“Esporte não é para a vida. Esporte é um momento.”

O boxeador afirma que deixou de lado os estudos e uma possível formação universitária para se dedicar integralmente ao esporte.

Para ele, atletas que chegam a uma Olimpíada deveriam contar com algum tipo de amparo depois da carreira, considerando o tempo de dedicação e os resultados alcançados.

Yamaguchi também defendeu maior atenção às modalidades esportivas além do futebol e destacou o papel do esporte na formação de crianças e jovens.

Motorista de aplicativo e treinador

Atualmente, Yamaguchi trabalha como motorista de aplicativo para complementar a renda. Ele também mantém uma pequena academia em sua própria garagem, onde treina crianças e adultos.

A mudança de rotina representa uma realidade muito diferente daquela vivida durante o auge da carreira esportiva.

O atleta contou que passou a trabalhar com o transporte por aplicativo depois de deixar os ringues e que essa atividade se tornou sua principal fonte de renda.

A situação, segundo ele, contrasta com a trajetória construída durante décadas no esporte, quando representou o Brasil em competições internacionais e conquistou títulos.

Abordagem policial

Durante a entrevista, Yamaguchi também relatou uma abordagem policial que sofreu enquanto trabalhava como motorista de aplicativo na região da Lagoa da Caraíba, em Vitória.

Segundo o boxeador, ele estava voltando para casa depois de realizar uma corrida quando foi parado por policiais. De acordo com o relato, quatro armas foram apontadas em sua direção.

Yamaguchi explicou que possui uma alteração na fala que também está presente em outros integrantes de sua família e afirmou que o policial interpretou sua maneira de falar como um possível sinal de embriaguez.

O atleta contou que tentou explicar que não consumia álcool ou drogas e que estava trabalhando como motorista. Segundo ele, posteriormente recebeu uma explicação de uma major sobre a abordagem, relacionada a uma denúncia envolvendo um veículo com características semelhantes ao seu.

Yamaguchi considerou válida a conversa posterior com a policial, mas afirmou que gostaria de ter tido a oportunidade de se identificar e explicar a situação durante a abordagem.

Um novo objetivo: formar um campeão mundial

Apesar de não ter conquistado o cinturão mundial que buscou durante a carreira profissional, Yamaguchi afirma que não abandonou completamente esse sonho. A diferença é que agora ele pretende realizá-lo por meio de outro atleta.

O ex-boxeador quer encontrar um jovem talento, acompanhá-lo e prepará-lo para chegar ao título mundial.

“Eu não consegui realizar esse sonho de ser campeão mundial, mas não desisti. Hoje eu tenho a meta de fazer um campeão mundial, buscar uma criança, focar nela cem por cento e fazer dela uma campeã mundial.”

Na academia montada na própria garagem, Yamaguchi já trabalha com jovens atletas que considera promissores. Segundo ele, alguns dos alunos demonstram talento suficiente para começar a competir.

Para o treinador, a experiência acumulada durante décadas no boxe pode agora ser utilizada para construir a carreira de uma nova geração.

A mensagem que deixa para quem pretende seguir pelo esporte é a mesma que orientou sua própria trajetória: persistência.

“Nunca desista dos seus sonhos. A vida tem muitos tropeços, mas nunca desista.”

Yamaguchi Falcão e Tatiana Sobreira. Foto: Thiago Freitas

A entrevista completa com Yamaguchi Falcão está disponível no canal da Jovem Pan News Vitória no YouTube. Confira o relato do medalhista olímpico sobre a trajetória no boxe, os desafios da carreira profissional, a rotina atual e o projeto de formar uma nova geração de campeões.

Por Guilherme Pacheco, da redação da Jovem Pan News Vitória

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