Tem gente que faz do próprio trabalho uma extensão da alma, algo que revira por dentro e e muda a trajetória de todos. E quando essa pessoa é do Norte, eu sinto um orgulho a mais em contar essa história, em ter sido testemunha desse processo.
Conheço uma amazonida cujo trabalho mexe fundo no dia a dia de milhares de mulheres do norte do Brasil. Não é discurso de gabinete e a sete chaves: é gente que está presente, que toma decisão, que vai atrás e que não espera a poeira baixar. E foi desse jeito de estar no mundo, de estar na Amazônia, que nasceu um dos projetos mais importantes que já vi para proteger o que sobra depois da dor irreparável e traumática: os filhos que ficam quando uma mãe é assassinada por feminicídio.
O projeto se chama Órfãos do Feminicídio, criado em 2018 pela Defensoria Pública do Amazonas. E quem está à frente dele é a defensora pública Caroline Braz, a Carol Braz.
A coragem por trás do nome
Carol começou cedo. Aos 20 anos já era escrivã da Polícia Civil. Depois foi aprovada em seis concursos públicos . Isso mesmo gente: Seis! Braz, virou uma das juízas mais jovens nomeadas em Roraima, em Boa Vista, onde ajudou a instalar o Juizado da Violência Doméstica contra Mulheres. Mas foi quando passou no concurso da Defensoria Pública do Amazonas que, segundo ela mesma já contou, tudo mudou de verdade, bateu mais fundo em sua alma. A instituição, aliás, já tinha um significado pessoal pra ela antes mesmo da posse: em 2004, depois da morte do pai num acidente aéreo, foi a Defensoria quem amparou a família dela.
Entre 2019 e 2020, Carol esteve à frente da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania do Amazonas, a Sejusc, período em que também atuou na ampliação de políticas de proteção à população LGBTQIA+, incluindo a criação do Conselho Estadual LGBT. Durante a pandemia (período para o Amazonas), sua presença à frente da pasta, teve um papel significativo no Amazonas.
Ela é dessas mulheres que, como ela mesma resume, não querem só atender quem já sofreu violência e já não é mais nada; querem trabalhar com informação e educação em direitos para que a violência nem aconteça.
O que é, na prática, o Órfãos do Feminicídio
O projeto nasceu de um levantamento simples e urgente: a Defensoria foi atrás de todos os processos de feminicídio consumado ou tentado registrados desde março de 2015 nas Varas do Tribunal do Júri de Manaus. A partir dali, a equipe passou a localizar as famílias. Desde a busca ativa, visita em casa, entrevista, até acompanhamento psicológico e jurídico.
Carol apontou a seguinte lógica: crianças e adolescentes também foram atingidas pelo feminicídio, mesmo não sendo as vítimas diretas do crime, logo o Estado não pode fingir que a responsabilidade dele termina quando a mãe morre.
Na prática, a equipe cuida de guarda, documentação, educação, saúde, assistência social, benefícios previdenciários, moradia e acesso à Justiça. Tudo junto, tudo articulado, porque quando uma mãe é morta, a família inteira desmorona, e o que ocorre em seguida? Avós assumem guarda, irmãos às vezes são separados, a renda cai, criança larga a escola no meio do ano, o que compromete a vida dessa criança e um futuro repleto de incertezas.
Quando entrevistei Carol, senti de perto o tamanho do projeto, e o quanto impacta diretamente o futuro dessas vítimas.
“O projeto Órfãos do Feminicídio representa, pra mim, o cuidado com crianças que foram vítimas da violência mais brutal. São crianças que presenciaram um lar desestruturado, um lar de violência, do pai agredindo a mãe, e que muitas vezes chegaram a presenciar até mesmo o próprio feminicídio. Então, são crianças que realmente precisam de um acolhimento, de um tratamento diferenciado.
Na Defensoria Pública, o nosso projeto, desde 2018, atende não só com uma equipe jurídica, mas também com uma equipe multidisciplinar de psicóloga e assistente social. A gente faz desde tirar a carteira de identidade, tirar um documento, entra com a ação de guarda, eu acompanho o plenário do Tribunal do Júri, acompanho as audiências do processo criminal. Mas nós também fazemos aquilo que vai mudar o dia a dia da vida dessa criança, que é a vaga na escola próxima da casa onde ela vai morar, porque essa criança vai mudar de casa, vai mudar de escola. Ingressamos com os pedidos de prioridade para recebimento de moradia do Minha Casa, Minha Vida, o pedido da pensão especial para o órfão do feminicídio, que é concedida pelo INSS e pelo CadÚnico, até conferir a caderneta de vacinação, pra que essa criança possa estar realmente com toda a sua vida organizada. A Defensoria Pública centraliza esse atendimento e faz todo o acompanhamento dessa família”, afirmou Carol.
Um reconhecimento que veio de novo (Foto DPEAM)
Em setembro de 2026, oito anos depois de criado, o projeto recebeu o Selo FBSP de Práticas Inovadoras de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, no Encontro Anual da entidade em São Paulo. Não é o primeiro prêmio: em 2021 já tinha vencido o Prêmio Innovare, na categoria Defensoria Pública.
E o projeto não parou no papel de troféu. Em agosto de 2026, a Defensoria começou a levar a metodologia para o interior do Amazonas, dentro do Programa Multiplicar — porque um projeto desses não pode ficar só em Manaus, não num estado com as distâncias que o nosso tem.
Já virou lei
O mais bonito disso tudo é que o trabalho não ficou só na boa vontade de uma equipe. Em 2023, virou a Lei Estadual nº 6.189, que garante atendimento especializado a órfãos do feminicídio no Amazonas, com; assistência social, saúde, alimentação, moradia, educação e assistência jurídica gratuita.

E agora a discussão chegou mais longe: bate na porta de Brasília, onde tramitam projetos de lei tanto na Câmara quanto no Senado propondo transformar essa experiência amazonense numa política nacional, com ampliação de idade de atendimento e mais recursos.
Enviei uma mensagem para a defensora Carol Braz, para saber qual o olhar dela sobre o caminhar desse projeto no Amazonas, que começa a ganhar vida para além da Amazônia brasileira.
“O prêmio vem como uma esperança de que esse trabalho, que é realizado pela Defensoria Pública do Amazonas, possa ser realizado também em outros estados. Uma esperança verdadeira de que essas crianças saiam da invisibilidade, onde elas ainda, se encontram hoje“, concluiu Carol.
Daqui, eu, enquanto jornalista, fico torcendo para que essa iniciativa seja ampliada para todo o Brasil! E cabe a nós, contadores de história, passar adiante o que uma mulher do Norte, com a trajetória dela cheia de viradas de chave, fez ao resolver enxergar além da própria dor das famílias e transformar isso em política pública, que já é lei e que pode virar exemplo pro Brasil inteiro.
Fonte e fotos: DPEAM, redes sociais Caroline Braz, Portais de notícias do Amazonas, entrevista concedida à jornalista que escreve esta coluna.
Foto capa: imagem gerada por IA
Tatiana Sobreira- Coluna Soul do Norte
Esta coluna é publicada simultaneamente nos sites Jovem Pan News Manaus e Jovem Pan News Vitória







