O Espírito Santo está desenvolvendo uma nova metodologia para mapear as áreas de café e acompanhar a evolução das lavouras ao longo do tempo. A proposta é utilizar sensoriamento remoto, técnicas de amostragem e inteligência artificial para atualizar as informações sobre a cafeicultura capixaba a cada seis meses.
O trabalho foi apresentado na quarta-feira (23), durante reunião do Comitê Gestor do Programa de Desenvolvimento Sustentável da Cafeicultura do Espírito Santo, realizada na Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), em Vitória.
A ferramenta deverá permitir não apenas identificar onde estão as áreas cultivadas, mas também comparar diferentes períodos e construir uma série histórica da ocupação das lavouras. A previsão é que os dados sejam disponibilizados ao público.
A iniciativa integra o Programa de Desenvolvimento Sustentável da Cafeicultura do Espírito Santo, que tem entre seus projetos a geolocalização do parque cafeeiro. O programa possui horizonte de execução até 2030.
Mapeamento poderá ser atualizado duas vezes por ano
Uma das principais mudanças previstas pelo projeto é a redução do tempo necessário para produzir e atualizar os mapas.
De acordo com os pesquisadores envolvidos, metodologias tradicionais podem levar de dois a três anos entre a coleta das informações e a disponibilização dos mapas. Com a nova ferramenta, a expectativa é reduzir esse intervalo para aproximadamente quatro a seis meses, permitindo uma atualização semestral.
O sistema deverá diferenciar as áreas de café conilon e café arábica, além de identificar lavouras em produção, áreas recém-plantadas e locais em processo de renovação.
Com as atualizações periódicas, será possível observar alterações na dimensão e na distribuição das áreas cultivadas e acompanhar a dinâmica da cafeicultura capixaba.
Dados podem ajudar no planejamento do setor
Para o professor da Ufes Samuel de Assis Silva, um dos pesquisadores envolvidos no projeto, a atualização mais frequente poderá aproximar os dados disponíveis da realidade encontrada no campo.
Segundo ele, a ferramenta também poderá contribuir para que políticas públicas sejam planejadas a partir de informações mais recentes sobre a distribuição das lavouras.
A utilização de técnicas de sensoriamento remoto e inteligência artificial já apresenta resultados em estudos específicos realizados no Estado. Uma pesquisa publicada pelo Incaper em 2026, por exemplo, utilizou sensoriamento remoto orbital e machine learning para mapear o parque cafeeiro de Rio Bananal. O estudo estimou 21.226 hectares de café cultivados no município em 2024 e alcançou acurácia global de 92% na classificação das áreas.
Cafeicultura tem peso na economia capixaba
A criação de uma base de dados mais atualizada ganha relevância diante do tamanho da atividade no Espírito Santo. Segundo o Incaper, a cafeicultura está presente em aproximadamente 60 mil das 90 mil propriedades agrícolas do Estado e envolve cerca de 400 mil empregos diretos e indiretos.
O instituto também informa que o Espírito Santo é o segundo maior produtor brasileiro de café, com produção de conilon e arábica e participação superior a 30% da produção nacional. A atividade está presente em praticamente todo o território capixaba, com exceção de Vitória.
No caso do conilon, o Incaper divide as áreas produtoras em diferentes regiões, incluindo Noroeste, Nordeste, Centro-Serrana e Sul-Caparaó. Já o arábica possui concentração importante nas regiões Centro-Serrana e Sul-Caparaó.
Mapeamento também pode ajudar nas exportações
Além do planejamento agrícola, o novo banco de informações poderá ser utilizado em demandas relacionadas à rastreabilidade e às certificações exigidas pelo mercado internacional.
O pesquisador do Incaper Renato Corrêa Taques explica que saber exatamente onde estão as lavouras pode auxiliar na comprovação da origem da produção e no atendimento a regulamentações internacionais.
A iniciativa também pode contribuir para estimativas de safra, já que a área efetivamente cultivada é uma das informações utilizadas para calcular o potencial de produção.
A própria Seag já apontava, em seu relatório de gestão, a necessidade de mapear áreas produtivas de commodities como café, cacau e silvicultura em conexão com iniciativas de rastreabilidade e com a plataforma Selo Verde.
Cooperativas poderão incorporar os dados
As cooperativas também participam das discussões sobre a ferramenta. A expectativa é que, em uma etapa posterior, as informações possam ser integradas aos sistemas utilizados pelas cooperativas e chegar aos produtores.
A possibilidade de trabalhar com dados mais detalhados poderá auxiliar tanto no acompanhamento das propriedades quanto no atendimento a exigências relacionadas à comercialização da produção.
Projeto continua até 2027
A versão apresentada nesta semana ainda é considerada uma primeira etapa do projeto. O desenvolvimento da metodologia deve continuar até o fim de 2027, com o objetivo de aumentar a precisão na identificação das áreas ocupadas pelo café e melhorar a delimitação dos talhões.
O trabalho é realizado em parceria entre o Governo do Espírito Santo, por meio da Seag e do Incaper, e a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com recursos do AL-INVEST Verde, programa financiado pela União Europeia.
A expectativa é que as atualizações periódicas formem, ao longo dos próximos anos, uma base histórica capaz de mostrar como a cafeicultura capixaba está mudando no território.
Fonte: Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), Incaper e Ufes. (SEAG)
Edição: Tatiana Sobreira, redação Jovem Pan News Vitória






