Em entrevista à Jovem Pan News Vitória, Ellen Camargo destaca papel da família, da escola e da educação tecnológica na prevenção da violência e na promoção da saúde mental
O bullying e o cyberbullying podem ultrapassar os limites da escola e afetar não apenas crianças e adolescentes, mas também suas famílias e toda a comunidade escolar. Durante o Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre saúde mental e prevenção do suicídio, o debate sobre como identificar sinais de sofrimento e criar redes de apoio ganha ainda mais importância.
Em entrevista à jornalista Tatiana Sobreira, no programa De Olho na Cidade, da Jovem Pan News Vitória, a psicóloga Ellen Camargo, especialista em educação tecnológica e autora da metodologia Microkids, explicou como a tecnologia pode ser utilizada com propósito educacional para trabalhar temas como bullying, cyberbullying, empatia e responsabilidade no ambiente digital.
Bullying também afeta a família e a comunidade escolar
Segundo Ellen, o bullying acontece em uma fase de desenvolvimento em que crianças e adolescentes ainda estão construindo aspectos importantes da própria identidade. Para a psicóloga, o enfrentamento da violência exige uma rede de apoio formada por família, escola e sociedade. O diálogo, nesse processo, ajuda a criar espaços para que crianças e adolescentes possam relatar situações de sofrimento.
“Os adultos, enquanto escola, enquanto pais, enquanto sociedade, precisam falar sobre isso, ter espaços de escuta para acolher, ter empatia e ensinar passo a passo todas essas partes.”
Ellen também alerta para a necessidade de não minimizar a dor relatada por uma criança ou adolescente com base em experiências vividas pelos próprios adultos.
Tecnologia pode ser usada para prevenção
A tecnologia, segundo Ellen, não precisa ser vista apenas como parte do problema. Quando utilizada com finalidade educacional, ela pode ajudar os estudantes a compreender situações de violência e a produzir conteúdos de conscientização.
“Nós trabalhamos com projetos para que o aluno, através da construção, possa não só entender o que está passando e o que o outro está passando, como bullying ou cyberbullying, mas também criar uma campanha, um vídeo e desenvolver algo para ensinar o outro.”
Na metodologia desenvolvida pela Microkids, os alunos participam da produção de materiais como jornais escolares, podcasts, vídeos e webséries. A proposta é colocá-los como protagonistas do processo de aprendizagem.
Um dos objetivos é trabalhar também o chamado letramento digital, mostrando que as ações realizadas na internet podem atingir outras pessoas e gerar consequências.
“Se eu estou assistindo algo e curto e compartilho aquilo ali, e isso está infringindo dor ao outro, eu também sou responsável por aquilo.”
Para Ellen, esse aprendizado envolve compreender que o bullying não se resume à relação entre vítima e agressor. Quem presencia ou compartilha determinada situação também pode participar da dinâmica da violência.
Família precisa manter espaços de diálogo
A psicóloga destaca que a prevenção não deve ficar restrita ao ambiente escolar. Para ela, os pais e responsáveis precisam acompanhar mudanças no comportamento dos filhos e manter canais de diálogo abertos.
Entre os sinais que podem chamar a atenção estão alterações repentinas de comportamento, perda do interesse por atividades que antes despertavam entusiasmo e mudanças relacionadas ao uso do celular ou da internet.
Ellen recomenda que os adultos evitem abordar diretamente uma possível situação de bullying com perguntas que possam fazer a criança ou o adolescente se sentir pressionado. A orientação é começar pela escuta e tentar compreender como aquela pessoa está se sentindo.
“Mudanças de comportamento têm que acender uma luzinha.”
A especialista também destaca que a responsabilidade dos pais permanece mesmo quando o filho está envolvido em uma situação de violência como agressor.
Nesse caso, além de buscar os caminhos adequados junto à escola, é necessário ensinar responsabilidade sobre as próprias ações e mostrar que mensagens, vídeos e publicações também podem ferir outras pessoas.
Cyberbullying não tem fronteiras
Uma das diferenças entre o bullying praticado presencialmente e o cyberbullying está justamente na possibilidade de a violência continuar fora dos limites físicos da escola.
“O cyberbullying rompe esses muros. Ele acompanha você em qualquer momento em que esteja. O cyberbullying não tem fronteiras, não tem limite, não tem parede.”
Por isso, a orientação aos estudantes precisa incluir também o ambiente digital. A proposta é fortalecer crianças e adolescentes para que reconheçam situações de violência, saibam como agir e conheçam os caminhos disponíveis para buscar ajuda.
Ellen também reforça que a criança ou adolescente não deve ser colocado apenas no papel de vítima. A educação precisa trabalhar empatia, responsabilidade e capacidade de reconhecer as consequências das próprias ações.
O que fazer quando uma criança está sofrendo?
Ao falar diretamente com crianças e adolescentes que estejam passando por uma situação de violência, Ellen reforçou a importância de romper o silêncio e procurar um adulto de confiança.
“Eu digo para você que está em sofrimento: busque o adulto em quem você confia. Você precisa quebrar esse silêncio e, se acha que não tem voz para isso, sinalize para alguém ser a sua voz.”
A orientação também vale para os adultos que forem procurados por uma criança ou adolescente.
“Se uma criança, adolescente ou jovem buscar você, tenha uma escuta assertiva, uma escuta de empatia, uma escuta livre de preconceitos. Uma escuta para acolher e, depois, orientar o que pode ser feito.”
Para a psicóloga, ouvir sem julgamentos é um primeiro passo para que a criança ou o adolescente se sinta seguro para relatar o que está acontecendo.
Educadores também precisam de cuidado
A rede de proteção também inclui os profissionais que trabalham diretamente com crianças e adolescentes. Durante a entrevista, Ellen explicou que a Microkids desenvolve ações voltadas não apenas aos estudantes, mas também aos educadores.
Durante o Setembro Amarelo, a empresa promove uma campanha interna de conscientização e prepara um webinar sobre o uso da tecnologia com propósito de acolhimento e impacto social.
A programação terá como tema “Conexões que Curam: uma tecnologia com propósito” e está prevista para o dia 29 de setembro, às 19h15, nos canais da Microkids.
A proposta reforça uma ideia defendida por Ellen durante a entrevista: quem cuida também precisa ser cuidado.
Educação como ferramenta de transformação
Com três décadas de atuação na área de educação, a Microkids desenvolve materiais que combinam educação, tecnologia e construção, colocando o estudante como protagonista.
Para Ellen, esse processo pode ajudar crianças e jovens a descobrir interesses, desenvolver habilidades e visualizar novas possibilidades para o futuro.
“Cada projeto é um despertar possível. ‘Puxa, eu gostei disso, me identifiquei com isso, eu posso ser’. Então, é mostrar ao aluno que ele é capaz, que ele pode pensar novos horizontes.”
A especialista também defende que a educação precisa ser pensada a partir do impacto que pode produzir na vida dos estudantes.

Confira a entrevista completa clicando aqui.
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Por Guilherme Pacheco, da redação da Jovem Pan News Vitória.






