Segundo o Observatório da Segurança Pública da Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (SESP), o Espírito Santo registrou 28 feminicídios entre janeiro e 30 de setembro de 2026. No cenário nacional, levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, com dados de janeiro a setembro, aponta redução de 4,5% nas mortes em comparação com o mesmo período de 2025, mas aumento de 10,4% nas tentativas de feminicídio.
O comparativo mostra que a ampliação de serviços, leis e mecanismos de proteção representa um avanço institucional, mas não significa que a violência tenha sido superada. É importante destacar que os 225 dias informados pela Prefeitura de Vitória dizem respeito exclusivamente à capital e não representam o cenário de todo o Espírito Santo.
Vitória: 44 dispositivos de proteção e milhares de atendimentos
Na capital capixaba, a Prefeitura aponta a atuação integrada de diferentes áreas da administração municipal. Entre as ferramentas de segurança está o Botão Maria da Penha, dispositivo utilizado por mulheres que possuem medidas protetivas de urgência.
Atualmente, 44 equipamentos estão em uso. Quando acionado, o dispositivo envia a localização da vítima em tempo real à Central de Monitoramento da Guarda Civil Municipal, que direciona uma viatura ao local. O sistema também permite a captação do áudio do ambiente, recurso que pode auxiliar na avaliação da ocorrência e na produção de provas em casos de descumprimento de medidas protetivas.
Na área da saúde, a Casa Rosa, Centro Especializado de Atenção à Saúde da Mulher e Famílias em Situação de Violência, já realizou mais de 21 mil atendimentos em cinco anos e acompanhou mais de 1,6 mil famílias.
Outro serviço é o Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violência (Cramsv), que oferece atendimento psicológico, social e orientação jurídica. De janeiro até 3 de novembro de 2026, foram atendidas 1.880 mulheres. Desde 2006, o equipamento contabiliza 36.775 atendimentos.
A Prefeitura também informa que o projeto Maria da Penha Vai à Cidade realizou 205.379 abordagens em feiras livres entre 2021 e outubro de 2026. Somente neste ano, foram 37.178 abordagens em 155 atividades.
As iniciativas incluem ainda ações educativas nas escolas, ampliação do ensino em tempo integral, cursos gratuitos de qualificação profissional e programas de assistência social. No Vix + Cidadania, 2.374 famílias são beneficiadas, sendo que 80% têm mulheres como responsáveis.
Outra medida é o programa Vix + Acolhedora, criado por lei municipal, que prevê o pagamento de um salário mínimo aos filhos de mulheres vítimas de feminicídio. O auxílio poderá ser concedido até os 18 anos, com possibilidade de extensão até os 24 anos em situações específicas.
Os números apresentados pela administração municipal demonstram a dimensão da estrutura de atendimento. Ao mesmo tempo, a quantidade de mulheres que procuram esses serviços evidencia que a demanda por acolhimento e proteção permanece elevada.
Espírito Santo: 28 feminicídios e quase 20 mil registros de violência doméstica
No cenário estadual, os indicadores reforçam a necessidade de ampliar as políticas de prevenção e proteção. Segundo o Observatório da Segurança Pública da SESP, foram registrados 28 feminicídios no Espírito Santo entre janeiro e setembro de 2026.
Outro indicador mostra a dimensão da violência doméstica no Estado. De acordo com levantamento publicado pela Folha Vitória, com base em dados do Observatório da SESP, foram contabilizados 19.552 registros de violência doméstica entre janeiro e agosto deste ano, uma média de aproximadamente 80 ocorrências por dia. No mesmo intervalo, 23 mulheres foram vítimas de feminicídio.
A diferença entre os períodos precisa ser observada: os 23 casos correspondem ao levantamento até agosto, enquanto o painel estadual já apresenta 28 feminicídios até setembro.
O desafio não se limita à redução das mortes. O descumprimento de medidas protetivas também preocupa. Segundo dados do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, foram registrados 2.929 casos de descumprimento em 2025 e 1.855 em 2026, no período considerado pelo levantamento. O tribunal informou ainda que 9.478 medidas protetivas foram concedidas no primeiro semestre deste ano.
Os dados indicam que a concessão de uma medida protetiva é apenas uma etapa do processo. A fiscalização, a resposta rápida diante de ameaças e o acompanhamento das vítimas são fundamentais para evitar a reincidência e a escalada da violência.
Brasil: feminicídios diminuem, mas tentativas aumentam
No cenário nacional, o Brasil registrou 1.082 vítimas de feminicídio entre janeiro e setembro de 2026, contra 1.133 no mesmo período de 2025. A redução foi de 4,5%, segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo em outubro, com base nos registros nacionais de segurança pública.
Apesar da queda nas mortes, as tentativas de feminicídio aumentaram. Foram 3.350 registros nos nove primeiros meses de 2026, ante 3.035 no mesmo intervalo do ano passado, crescimento de 10,4%. Isso representa aproximadamente 12 tentativas por dia no país. O levantamento também aponta que 11 estados apresentaram aumento nos casos de feminicídio.
Outro indicador revela que a violência pode ser ainda maior do que mostram os boletins de ocorrência. Segundo atualização do Mapa Nacional da Violência de Gênero, divulgada pelo Senado Federal em agosto de 2026, aproximadamente 29 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar em um período de 12 meses.
O levantamento, elaborado a partir da 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do Instituto DataSenado, aponta que cerca de 87% dessas mulheres relataram situações concretas de violência sem identificá-las ou nomeá-las espontaneamente dessa forma. Além disso, 93,6% das vítimas não haviam procurado proteção policial.
Os números mostram a distância entre a violência vivenciada pelas mulheres e os registros oficiais. Por isso, além da investigação dos crimes, as políticas públicas precisam garantir canais de denúncia, atendimento acessível e acompanhamento das vítimas.
Governo Federal: pacto reúne os Três Poderes e amplia ações de proteção
No âmbito federal, uma das principais iniciativas de 2026 foi o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, assinado em fevereiro pelos Três Poderes da República. A proposta é integrar ações de prevenção à violência contra mulheres e meninas, proteção às vítimas e responsabilização dos agressores.
Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil registrou 848 vítimas de feminicídio entre janeiro e julho de 2026, contra 876 no mesmo período de 2025, uma redução de 3,2%. Os dados são do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), consolidados pela Secretaria Nacional de Segurança Pública.
O ministério também informou que as duas fases da Operação Mulher Segura realizadas em 2026 somaram mais de 34 mil prisões, entre flagrantes e cumprimento de mandados judiciais. As ações contabilizaram mais de 150 mil atendimentos a vítimas e mais de 95 mil acompanhamentos de medidas protetivas.
Os resultados fazem parte das estratégias federais de articulação com as forças de segurança estaduais. O objetivo é ampliar a prevenção, acompanhar mulheres em situação de risco e fortalecer a responsabilização dos autores de violência.
Avanços institucionais ainda precisam se transformar em proteção efetiva
A comparação entre Vitória, Espírito Santo e Brasil mostra avanços na estrutura de atendimento, na criação de mecanismos de proteção e na articulação entre instituições públicas. Entretanto, os indicadores revelam que a violência continua presente e que os resultados variam conforme a região e o tipo de ocorrência analisada.
Vitória destaca um período sem registros de feminicídio e mantém serviços de acolhimento e prevenção.
Os números não permitem atribuir a redução ou a ausência de casos a uma única política pública. Para avaliar a efetividade das ações, também é necessário acompanhar indicadores como reincidência da violência, cumprimento das medidas protetivas, tempo de resposta dos serviços e acesso das vítimas à rede de atendimento. O desafio para os três níveis de governo continua: transformar leis, programas e estruturas de acolhimento em proteção efetiva, garantir que as mulheres consigam busquem ajuda antes que as agressões evoluam para situações mais graves.
Onde buscar ajuda
-
190 – Polícia Militar: em situações de emergência e risco imediato.
-
180 – Central de Atendimento à Mulher: orientação, informações e encaminhamento para serviços de proteção.
-
181 – Disque-Denúncia: registro de denúncias de forma anônima.
-
Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher: registro de ocorrências e orientação.
-
Defensoria Pública: orientação jurídica e solicitação de medidas protetivas, conforme os canais disponíveis.
Fontes : Prefeitura de Vitória; Observatório da Segurança Pública da SESP-ES; Tribunal de Justiça do Espírito Santo; Ministério da Justiça e Segurança Pública; Senado Federal – Observatório da Mulher contra a Violência e Instituto DataSenado; Folha de S.Paulo; Folha Vitória.
Imagem IA
Edição: Tatiana Sobreira, redação Jovem Pan News Vitória







