As Américas convivem há mais de um século com alguns dos terremotos mais devastadores já registrados no planeta.
A tragédia da Venezuela, registrada no dia 24 de junho de 2026, infelizmente passa a integrar essa lista, mas ela também nos permite enxergar algo que vai além dos números: a evolução da resposta humanitária internacional.
Senta que lá vem História
As Américas convivem há mais de um século com alguns dos terremotos mais devastadores já registrados no planeta. Os números revelam isso com clareza — e a tragédia da Venezuela, em 24 de junho de 2026, passa a integrar essa lista.
O maior terremoto já medido no mundo ocorreu justamente aqui no continente: em 22 de maio de 1960, Valdivia, no Chile, registrou magnitude 9,5. Cerca de 1.600 pessoas morreram, mais de 2 milhões ficaram desabrigadas e o tsunami atravessou o Pacífico até o Havaí, o Japão e as Filipinas. Dez anos depois, no Peru, um terremoto de 7,9 provocou o colapso do Monte Huascarán e matou cerca de 70 mil pessoas. Em 1985, a Cidade do México perdeu ao menos 10 mil habitantes para um terremoto de 8,0. E em 2010, o Haiti viveu a maior tragédia humanitária recente da região: magnitude 7,0, mais de 220 mil mortos, 1,5 milhão de desabrigados.
Agora, em 2026, a Venezuela entra novamente nessa cronologia. Segundo o USGS, dois terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5, separados por apenas 39 segundos, foram os maiores registrados no país desde 1900. Até esta sexta-feira (26), as autoridades confirmavam mais de 200 mortos, centenas de feridos e dezenas de edifícios destruídos — com estimativas que podem ultrapassar 100 mil vítimas.
Aprendemos com o tempo?
Quando colocamos esses acontecimentos lado a lado, uma conclusão aparece quase imediatamente: terremotos não escolhem países ricos ou pobres, mas o número de vítimas quase sempre acompanha o nível de preparação e a velocidade do socorro. Terremotos de magnitudes semelhantes podem produzir consequências completamente diferentes dependendo da qualidade das construções, das normas antissísmicas e da rapidez do resgate.
Outro padrão se repete nas respostas internacionais. Após o terremoto do Haiti em 2010, mais de cem países mobilizaram aviões, hospitais de campanha e equipes especializadas. O Brasil participou ativamente, enviando militares, profissionais de saúde e toneladas de suprimentos. Poucas horas após os terremotos na Venezuela, Brasil, Estados Unidos, Espanha, França, México e outros países já ofereciam cooperação ao governo venezuelano. O presidente Lula manifestou solidariedade e colocou o país à disposição para ajuda humanitária.
Mas existe uma ajuda que costuma chegar antes mesmo da diplomacia: ela nasce da população. Quem acompanhou as tragédias de Brumadinho, Petrópolis ou as enchentes no Rio Grande do Sul sabe do que os brasileiros são capazes. Em poucas horas surgem campanhas, correntes de solidariedade, doações. É provável que, nos próximos dias, vejamos o mesmo acontecer para as famílias venezuelanas.
Depois de olhar todos esses dados, fica uma reflexão simples: nenhum país enfrenta sozinho uma tragédia dessa dimensão. Quando a terra treme, não existe nacionalidade embaixo dos escombros. Existe apenas gente esperando ser encontrada. E as maiores respostas da humanidade nunca foram os terremotos — foram os braços que chegaram logo depois deles.
A próxima grande tragédia talvez não venha em segundos
Enquanto os olhos do mundo acompanham as buscas na Venezuela, cientistas monitoram outro fenômeno igualmente devastador, porém mais lento. Episódios de El Niño alteram profundamente o regime de chuvas na América do Sul: na Amazônia, favorecem secas históricas, incêndios e isolamento de comunidades ribeirinhas; no Sul do Brasil, aumentam o risco de enchentes como as que destruíram o Rio Grande do Sul. Diferentemente dos terremotos, esse tipo de tragédia não derruba prédios de uma vez — mas pode comprometer ecossistemas inteiros e afetar milhões de pessoas ao longo de meses.
No século XXI, salvar vidas já não depende apenas de responder aos desastres. Depende de antecipá-los. Um terremoto na Venezuela, uma seca na Amazônia e uma enchente no Sul do Brasil têm isso em comum: a natureza continuará impondo desafios. A diferença estará na forma como decidiremos enfrentá-los.
Fontes: Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), do G1, da Agência Brasil, do Centro Nacional de Informações sobre Terremotos dos Estados Unidos
Por Tatiana Sobreira, coluna Soul do Norte– reprodução na Jovem Pan News Manaus e Vitória







