Projeto reúne pacientes da oncologia da Unimed Vitória em parceria com o curso de Gemologia da Ufes e utiliza criação de joias para estimular expressão, criatividade e novas perspectivas durante o tratamento

O tratamento contra o câncer de mama envolve desafios que vão além dos procedimentos médicos. Para criar um espaço de acolhimento, expressão e convivência, mulheres atendidas pela oncologia da Unimed Vitória participam de uma oficina terapêutica de criação e lapidação de joias, realizada em parceria com o curso de Gemologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

A iniciativa foi tema do programa De Olho na Cidade, da Jovem Pan News Vitória, nesta segunda-feira (21), em entrevista com a terapeuta ocupacional Mayra Passabon, a psicóloga Tais Peres e Fabiani de Martin, professora de gastronomia e paciente em tratamento contra o câncer de mama desde 2023.

A proposta utiliza a arte como ferramenta terapêutica e busca proporcionar às participantes uma experiência que vá além do diagnóstico e permita novas formas de expressão durante o tratamento.

Arte como parte do processo terapêutico

Mayra Passabon explicou que o projeto nasceu da busca por utilizar diferentes manifestações artísticas como parte do acompanhamento das pacientes.

Segundo a terapeuta ocupacional, a escolha pela criação de joias acrescentou ao projeto o trabalho manual e a possibilidade de transformar materiais enquanto as participantes também refletem sobre suas próprias experiências.

“Nós pensamos em algo que pudesse ser moldado, que tivesse o fazer com as mãos, mas também com os sentimentos, que trouxesse uma história.”

A oficina é realizada às quartas-feiras pela manhã, com participação das pacientes, profissionais da saúde, professora e alunos do curso de Gemologia da Ufes.

Projeto nasceu de grupo terapêutico da oncologia

Tais Peres contou que a oficina surgiu a partir de um grupo terapêutico já desenvolvido com pacientes da oncologia da Unimed Vitória. A psicóloga explicou ainda que a parceria foi construída com a professora Kelly Cristina da Costa, do curso de Gemologia da Ufes. A docente e os alunos recebem as participantes no laboratório para ensinar as diferentes etapas de produção de uma joia.

“Ela, junto com os alunos dela, nos recebe nas quartas-feiras de manhã e faz essa oficina com as pacientes, ensinando cada etapa do processo da criação e do fazer de uma joia que carrega muitas memórias.”

Para Tais, o próprio processo de produção da peça permite estabelecer relações com o tratamento oncológico, já que nem sempre o resultado aparece imediatamente e, muitas vezes, é necessário corrigir o caminho.

“Nem sempre dá certo de primeira, nem sempre o movimento é fluido, precisa às vezes fazer algum ajuste, e isso se assemelha com o tratamento oncológico.”

Fabiani descobriu o câncer em 2023

Uma das participantes da oficina é Fabiani de Martin, professora de gastronomia e chefe de cozinha. Ela descobriu o câncer de mama em 2023 e destacou durante a entrevista a importância da realização de exames preventivos. Fabiani também ressaltou o papel da rede de apoio durante o tratamento, formada por familiares, amigos e pelo companheiro.

“Quando nós descobrimos, parece que abre um buraco e você cai dentro. E aí nós temos que falar também da importância da família, dos amigos, do seu parceiro, meu marido. A rede de apoio é muito, mas muito mais importante.”

Para ela, compreender que existem pessoas dispostas a acompanhar o processo torna os desafios do tratamento mais suportáveis.

“Quando a gente entende que essa rede de apoio está para te sustentar, para te levantar e para seguir em frente com você, tudo fica mais fácil.”

Da matéria-prima à joia

Fabiani conheceu a oficina por meio do trabalho desenvolvido por Mayra e Tais e decidiu participar mesmo sem ter experiência anterior com a produção de joias.

A participante contou que uma das experiências mais marcantes foi acompanhar a transformação de uma peça inicialmente bruta em uma joia pronta.

“Foi ver um negócio tão feio ficar bonito. Porque, no começo, você fica olhando para aquela joia, aquela coisa bruta na frente, e pensa: ‘Isso não vai dar brilho nunca. Esse negócio não vai ficar bom’. E aí, quando você chega ao final do processo, você pensa: ‘Ah, eu uso ela, sim’.”

Para Fabiani, a transformação do material também passou a representar sua própria experiência durante o tratamento. Ela comparou o tratamento a uma montanha-russa, com momentos de maior tranquilidade e outros de dificuldade.

“Eu falo sempre com as meninas que é como se fosse uma montanha-russa. Às vezes você está lá no topo, às vezes você cai com tudo, e aí levanta e vamos de novo, vamos embora.”

Oficina busca enxergar a mulher para além do diagnóstico

Segundo Tais, um dos objetivos do projeto é fazer com que as participantes percebam que continuam exercendo diferentes papéis e desenvolvendo novas possibilidades mesmo durante o tratamento.

A psicóloga também explicou que a oficina permite trabalhar aspectos como autoria, autonomia, criatividade e expressão.

“Nós temos trabalhado muito questões como autoria, autonomia, criatividade e expressão. Na verdade, elas estão produzindo para elas. As joias são delas.”

A produção também será apresentada em uma exposição marcada para o dia 22, na sede da Unimed. As participantes poderão desfilar com as próprias peças ou escolher alguém para representá-las.

Profissionais também são transformados pela experiência

A proposta não produz efeitos apenas entre as pacientes. Mayra afirmou que o contato com as histórias e experiências das participantes também transforma os profissionais envolvidos no projeto.

“Eu acho que nós também estamos sendo lapidados. A história dela, o processo dela também mexe comigo, me molda, traz um outro ponto de vista para a minha vida.”

Tais destacou ainda a interação entre pacientes e estudantes da universidade como parte importante da experiência.

“Nós acreditamos muito que o vínculo, que a troca de experiências, são muito potentes como um processo terapêutico, mas não só exclusivamente para quem está lidando com algum diagnóstico, seja de saúde física ou mental, mas para todo mundo.”

Exposição vai apresentar as joias produzidas pelas pacientes

A oficina conta com a participação da professora Kelly Cristina da Costa e dos alunos do curso de Gemologia da Ufes. Enquanto a equipe de saúde trabalha aspectos terapêuticos, emocionais e de expressão, a universidade contribui com o conhecimento técnico necessário para a produção das peças.

A exposição marcada para o dia 22 permitirá que as participantes apresentem as joias produzidas durante a oficina e compartilhem parte das experiências vividas ao longo do processo.

Para Fabiani, a atividade abriu uma nova possibilidade de expressão e despertou o desejo de continuar trabalhando com as pedras e a criação de joias.

“É uma situação nova, então é uma vida nova. É outro olhar, outra pegada. Para quem sempre trabalhou com alimentação, é uma arte diferente, mas um processo muito bacana e muito gostoso.”

Atualmente, oito mulheres participam da oficina. A proposta da equipe é continuar utilizando diferentes formas de arte para permitir que as pacientes se expressem e se percebam para além do diagnóstico.

“Cada ano nós vamos tentando trazer uma expressão, uma forma de se expressar utilizando a arte, para que elas possam se enxergar, se perceber para além do diagnóstico, para além da doença”, explicou Tais.

A oficina mostra como a criação artística pode abrir espaço para convivência, criatividade e novas perspectivas durante o tratamento, aproximando pacientes, profissionais da saúde e estudantes em torno de uma experiência compartilhada.

Confira a entrevista completa com Mayra Passabon, Tais Peres e Fabiani de Martin clicando aqui.

Por Tatiana Sobreira e Guilherme Pacheco, da redação da Jovem Pan News Vitória.

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