Iniciativa selecionará até 20 fotógrafas e 60 fotografias para exposição no Mucane, em Vitória, com bolsas e custos de produção das obras

Fotógrafas negras de todo o Brasil têm até esta terça-feira (22) para se inscrever gratuitamente na Mostra Turmalina de Mulheres Negras na Fotografia, que será realizada no Mucane – Museu Capixaba do Negro “Verônica da Pas”, em Vitória. A iniciativa vai selecionar até 20 fotógrafas e 60 fotografias, com bolsas para as artistas escolhidas e custeio de impressão, molduraria e montagem das obras.

O projeto foi tema do programa De Olho na Cidade, da Jovem Pan News Vitória, nesta segunda-feira (21), em entrevista concedida por Tamara dos Santos, fotógrafa, artista visual e uma das responsáveis pela curadoria da mostra, à jornalista Tatiana Sobreira.

A iniciativa é uma extensão do Festival Turmalinas e tem como proposta ampliar o protagonismo de mulheres negras na produção artística e fotográfica. Para Tamara, o recorte racial do edital representa uma oportunidade de contar histórias a partir de perspectivas construídas pelas próprias mulheres negras.

“É um edital com esse recorte racial porque nós acreditamos que isso não é apenas uma inclusão, mas uma forma de contar novas histórias com o nosso olhar, sem um olhar colonizador, poder contar nossas histórias e as nossas vivências, nossas indagações e aspirações através da fotografia, das artes plásticas e das artes visuais.”

Mostra busca ampliar o protagonismo de mulheres negras

Tamara explicou que a proposta da iniciativa vai além da presença de mulheres negras como personagens das fotografias. O objetivo é valorizar também as artistas responsáveis pela construção dessas narrativas.

Para a curadora, a experiência de ser uma mulher negra permite que determinados símbolos, memórias e vivências sejam representados a partir de perspectivas específicas.

“Isso só se traz mesmo com uma vivência, sendo uma mulher negra, uma pessoa negra. É muito particular dividir esse universo que contempla ser uma pessoa negra, mas também é muito gratificante ver nas produções, nas séries que são enviadas, como elas se conectam.”

Tamara afirma que a mostra também pretende contribuir para a construção de novas narrativas sobre a população negra, levando em consideração as diferentes realidades existentes no país.

“Eu acho que a nossa importância é essa: que nós realmente possamos mudar uma linguagem que já foi criada sobre o nosso povo e contar isso de uma forma nova. Como é agora, como é hoje, trazer novas perspectivas da nossa vivência.”

Fotografia também revela a diversidade das experiências

Ao falar sobre a produção artística de mulheres negras de diferentes regiões do Brasil, Tamara destacou a diversidade cultural existente no país.

Segundo ela, a proposta é mostrar que as artistas negras brasileiras não formam um grupo homogêneo e que suas produções carregam diferentes experiências, territórios e identidades.

“Mostrar que o nosso Brasil, que as nossas artistas, as nossas fotógrafas, elas são plurais e que nós não podemos ser simplesmente generalizados como um povo brasileiro.”

Inscrições são gratuitas e seguem até esta segunda-feira

As inscrições para a mostra são gratuitas e estão abertas a mulheres negras de todo o Brasil. As participantes podem enviar séries com até dez fotografias.

Tamara explicou que o processo foi pensado para ser simples e reduzir possíveis barreiras para as artistas interessadas.

“Eu acho que é muito importante dizer que são inscrições gratuitas. Todas as mulheres negras do Brasil podem enviar suas séries, podem enviar séries com até dez fotografias. O formulário é muito simples, é muito tranquilo, não é tão burocrático.”

Segundo a curadora, o objetivo é justamente facilitar o acesso ao processo de seleção.

“Quando fala em inscrição digital, as pessoas já pensam em uma burocracia muito grande, e esse digital está facilitado justamente para romper essa barreira.”

As inscrições podem ser feitas pelo site oficial do Festival Turmalinas, onde também está disponível o edital com as regras e os critérios para participação.

Curadora também atua como fotógrafa e artista visual

Tamara participa da curadoria da mostra ao lado da fotógrafa e produtora cultural Tainara Barreto. Para ela, assumir a função representa uma nova etapa em sua trajetória profissional, mas sem deixar de lado sua atuação como artista.

A curadora contou que esta é sua primeira experiência à frente da curadoria de uma exposição e destacou a importância de dividir o processo com Tainara. Para Tamara, a experiência também representa uma oportunidade de aprendizado.

“Eu me sinto muito honrada de estar nessa junto com a Tainara. Ela também é uma pessoa maravilhosa, uma fotógrafa incrível, comunicadora, produtora cultural, curadora. Então, eu estou aprendendo muito com ela e sou muito grata.”

Fotografia pode reescrever perspectivas sobre a população negra

Tamara também falou sobre o papel da fotografia na construção e preservação de memórias. Para ela, registrar uma pessoa, um território ou uma experiência pode contribuir para a criação de novas perspectivas sobre essas histórias.

A curadora ressaltou que essa ideia não significa apagar o que já foi produzido, mas ampliar os olhares existentes.

“Eu não digo só de reescrever a ponto de apagar tudo que já foi escrito, mas de realmente trazer novos olhares e desmistificar muitas coisas que já foram escritas.”

Para Tamara, a presença de obras produzidas por mulheres negras em um museu dedicado à preservação da memória da população negra amplia ainda mais o significado da iniciativa.

“Quando nós trazemos esse outro lugar da produção feita por uma mulher negra, com a sensibilidade de olhar e de vivências que ela teve, nós estamos de fato transformando essas linguagens e pensamentos. Estamos trazendo a autoestima para nós e para o nosso povo que vai vir ainda.”

Exposição será realizada no Mucane

A realização da mostra no Mucane também foi destacada por Tamara como parte importante da proposta. O museu, localizado em Vitória, é dedicado à preservação e valorização da memória e da cultura negra.

Segundo a curadora, a possibilidade de uma fotógrafa que nunca teve oportunidade de expor ter sua obra apresentada em um espaço voltado à memória da população negra amplia o impacto da iniciativa.

“Imagina que maneiro: você nunca teve a oportunidade de expor uma fotografia e ela está dentro de um museu que preserva a história do seu povo.”

Programação terá oficinas de fotografia e literatura

Além da exposição, a Mostra Turmalina terá atividades abertas ao público. Segundo Tamara, a programação inclui oficinas de fotografia e literatura.

“A mostra é uma extensão do festival que aconteceu este ano, em julho, em Vitória. Também vão ter oficinas de fotografia, oficinas de literatura e a programação vai sendo revelada conforme for acontecendo a mostra.”

A curadora reforçou que a iniciativa pretende ampliar o espaço de participação das mulheres negras na produção cultural e artística, reunindo diferentes linguagens e perspectivas.

Curadora faz convite para inscrições

Ao final da entrevista, Tamara reforçou o convite para que fotógrafas negras de todo o país participem da seleção.

“Eu espero que muitas fotógrafas possam se inscrever até amanhã. Não criem empecilhos, não se sabotem, só nos mandem suas séries. Estamos esperando muito ansiosos para ver.”

A Mostra Turmalina de Mulheres Negras na Fotografia é realizada pela Júpiter Cultura, com patrocínio da Vale, por meio de incentivo da Lei Rouanet e do Ministério da Cultura.

Confira a entrevista completa com Tamara dos Santos clicando aqui.

Por Tatiana Sobreira e Guilherme Pacheco, da redação da Jovem Pan News Vitória.

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