A literatura capixaba vive um momento de projeção nacional, impulsionada pelo reconhecimento de novos autores e pela participação crescente em eventos e publicações pelo país. Um dos representantes dessa geração é o escritor, poeta e professor Renan de Andrade, que lançou nesta quinta-feira (6) o livro Arquivo Perdido. A obra reúne poemas sobre memória, cotidiano e sobrevivência emocional, mas também carrega uma história que marcou profundamente seu processo de criação: o manuscrito original foi perdido após uma falha no computador e precisou ser reconstruído quase inteiramente de memória.
Em entrevista ao programa De Olho na Cidade, da Jovem Pan News Vitória, Renan contou que o livro já estava com cerca de 70% do conteúdo concluído quando o notebook apresentou um problema que comprometeu todos os arquivos.
Segundo o escritor, a tentativa de recuperar os arquivos incluiu o envio do disco rígido para uma empresa especializada nos Estados Unidos, mas sem sucesso. Diante da perda, ele reuniu poemas que ainda estavam espalhados entre blocos de notas do celular, agendas e mensagens enviadas a amigos. O restante foi reconstruído com o auxílio da própria memória.
“Eu comecei a reorganizar isso e também confiei muito na minha memória. Conseguia lembrar de muita coisa e comecei a reescrever.”
Foi justamente desse episódio que nasceu o título Arquivo Perdido. Além da referência literal ao arquivo apagado, o nome também dialoga com o conteúdo da obra, que aborda lembranças, experiências pessoais e reflexões acumuladas ao longo da vida.
Escrita amadureceu com o tempo
Professor de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira e Produção de Texto há cerca de 20 anos, Renan contou que começou a escrever aos 10 anos, durante um trabalho escolar sobre a água. O texto foi escolhido para integrar uma publicação da escola e apresentado em um sarau para os pais dos alunos. A experiência despertou o interesse definitivo pela literatura.
“O trabalho de escola foi a porta de entrada. Ali eu gostei daquela coisa e segui com leitura e escrita.”
Ao longo da carreira, publicou os livros Cenho (2008), Poemas Riscados (2016), Meus Brados (2024) e agora Arquivo Perdido. Para o autor, a evolução da escrita acompanha o amadurecimento pessoal.
“Eu acho que o escritor precisa realmente passar pelo tempo, pelas experiências de vida e pelas próprias questões do mundo para que isso gere reflexão e se traduza na escrita.”
Reconhecimento além do Espírito Santo
Renan também afirmou que passou a perceber um reconhecimento maior de seu trabalho quando começou a participar de coletâneas literárias nacionais. Poemas de sua autoria já foram publicados em projetos editoriais do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco e São Paulo.
Neste ano, o escritor participará da Bienal do Livro de São Paulo por meio da coletânea Poemas de Amor para Mudar o Mundo, organizada por uma editora paulista.
Segundo ele, a seleção dos textos em diferentes estados reforçou a percepção de que sua produção literária alcançava novos espaços.
“A palavra me salvou de mim”
Durante a entrevista, Renan definiu a literatura como uma forma de resistência e afirmou que a escrita teve papel decisivo em sua trajetória pessoal e profissional.
“A palavra me salvou de mim várias vezes.”
O escritor afirmou que não consegue separar a própria vida dos poemas que produz e que cada texto nasce de experiências que considera verdadeiras.
“Eu nunca escrevi um texto no qual eu não acreditasse muito ou que não falasse de mim.”
Ao comentar o processo criativo, Renan também defendeu que escrever exige muito mais dedicação do que inspiração imediata.
“O texto precisa passar por um processo de maturação. A inspiração vem bruta, mas ela precisa ser lapidada.”
Livro reúne memórias e reflexões
Além da história envolvendo a perda dos arquivos, Arquivo Perdido reúne poemas que abordam temas como memória, relações humanas, ausências e questões sociais. Segundo o autor, a obra foi organizada como um grande conjunto de lembranças e experiências, reunindo diferentes momentos da vida em uma única narrativa poética.
O lançamento ocorreu nesta quinta-feira (6), em Vitória, com sessão de autógrafos, apresentação musical e exposição de obras inspiradas nos poemas do livro.
A entrevista completa está disponível no canal da Jovem Pan News Vitória no YouTube.







