Em entrevista à Jovem Pan News Vitória, Larissa de Sousa destaca mudanças de comportamento, diálogo e identificação precoce como pontos importantes para buscar ajuda
A taxa de suicídio entre pessoas de 10 a 24 anos aumentou 38% nas Américas entre 2000 e 2021, segundo dados da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Em 2021, foram registradas 18.157 mortes por suicídio nessa faixa etária no continente. O cenário reforça a necessidade de ampliar a atenção à saúde mental de crianças e adolescentes e, principalmente, de reconhecer sinais de sofrimento antes que situações mais graves aconteçam.
O tema foi discutido no De Olho na Cidade desta terça-feira (06), quando a jornalista Tatiana Sobreira entrevistou a médica Larissa de Sousa, neurocirurgiã pediátrica e neuropsiquiatra infantil da Vidah Kids. Durante a conversa, a especialista explicou como identificar mudanças de comportamento, como abordar crianças e adolescentes sem julgamentos e em que momento procurar ajuda profissional.
O crescimento registrado nas Américas foi ainda mais acentuado entre crianças de 10 a 14 anos. No Brasil, dados apresentados durante o programa apontam que, em 2022, a probabilidade de suicídio entre adolescentes já era 21% maior do que entre jovens e adultos.
A preocupação também está relacionada ao início precoce dos transtornos mentais. Estima-se que metade deles comece antes dos 14 anos, enquanto muitos casos só são identificados anos depois.
Para Larissa, reconhecer o sofrimento na infância e na adolescência é um dos principais desafios, já que crianças nem sempre conseguem expressar o que estão sentindo da mesma forma que um adulto.
Crianças nem sempre conseguem explicar o sofrimento
Segundo a médica, enquanto adultos podem verbalizar sentimentos como tristeza profunda ou depressão, crianças frequentemente manifestam o sofrimento por meio do corpo e do comportamento.
“O sofrimento da criança fala a língua do corpo, fala a língua do comportamento, e nós muitas vezes não estamos treinados para fazer essa leitura.”
Na infância, alguns sinais podem aparecer como dores de cabeça ou de barriga sem causa aparente, cansaço, alterações no sono ou na alimentação e até comportamentos regressivos. Uma criança que havia abandonado a chupeta, por exemplo, pode voltar a utilizá-la ou passar a apresentar uma necessidade maior de colo e proximidade dos pais.
Também podem surgir medo de se separar dos responsáveis e irritabilidade.
Entre adolescentes, a especialista chama atenção para sinais como irritabilidade persistente, isolamento, perda do interesse por atividades que antes proporcionavam prazer e queda no rendimento escolar.
O problema, segundo Larissa, é que esses comportamentos podem ser interpretados apenas como uma fase, preguiça ou mau humor.
“Aquela tristeza, aquelas alterações de comportamento muito intensas, que duram mais de duas semanas e estão tirando a criança da própria vida, o adolescente da própria vida, causando prejuízo escolar, de socialização, de tudo, são um sinal de alerta importante.”
Mudanças de comportamento precisam ser observadas
A identificação precoce depende, principalmente, da atenção dos adultos que convivem diariamente com crianças e adolescentes.
Larissa explica que os responsáveis não precisam esperar uma grande conversa para perceber o que está acontecendo. Momentos comuns da rotina, como refeições, deslocamentos para a escola ou atividades domésticas, podem criar oportunidades para observar e ouvir os filhos.
A médica recomenda que os pais estejam realmente presentes nesses momentos, inclusive evitando que o celular interrompa a interação.
“A primeira coisa é nós começarmos a nos tornar mais presentes dentro dessa correria, no sentido de estarmos mais atentos aos nossos filhos e percebermos essas alterações.”
A abordagem também deve começar pela escuta. Em vez de pressionar o adolescente para que explique imediatamente o que está acontecendo, a orientação é demonstrar disponibilidade para conversar e continuar observando caso ele não queira falar naquele momento.
A integração entre família e escola também é considerada importante, principalmente porque crianças e adolescentes podem passar boa parte do dia no ambiente escolar.
Família e escola precisam atuar juntas
Além da família, a escola pode desempenhar um papel importante na identificação de mudanças. Professores e outros profissionais que acompanham a rotina dos estudantes podem perceber alterações que não aparecem necessariamente em casa.
Larissa citou durante a entrevista um estudo publicado na revista The Lancet, segundo o qual programas de saúde mental nas escolas, com professores preparados para reconhecer sinais, podem contribuir para reduzir a possibilidade de sintomas de depressão e ansiedade passarem despercebidos.
Para ela, a rede de proteção precisa funcionar de maneira integrada.
“Ninguém está sozinho e nem se salva sozinho. E, juntos, nós conseguimos melhorar essa estatística se todos nós estivermos mais atentos a esses sinais e a esses sintomas.”
Falar sobre sofrimento não deve ser um tabu
Quando uma criança ou adolescente manifesta pensamentos relacionados à morte ou diz que não quer mais viver, a situação exige atenção imediata. Para Larissa, o primeiro passo é oferecer acolhimento e segurança, sem repressão ou julgamento.
“Nós realmente precisamos primeiro acolher, abraçar e dizer: ‘Eu estou aqui’. Não podemos deixar essa pessoa sozinha. Vamos procurar ajuda.”
A médica reforça que sentimentos não devem ser tratados como motivo de vergonha e que validar o que a criança ou o adolescente está sentindo não significa concordar com comportamentos inadequados.
A orientação é ajudar a identificar a emoção e ensinar formas de lidar com ela, mantendo aberto o espaço para que a criança possa falar sobre aquilo que está causando sofrimento.
Segundo Larissa, a abordagem precisa acontecer antes que o quadro chegue a uma situação de crise. O objetivo é criar um ambiente em que falar sobre saúde mental não seja considerado um tabu.
Pequenos momentos ajudam a construir vínculos
Larissa também destaca que a prevenção começa antes de uma situação de crise. Para ela, a construção de vínculos acontece nas atividades cotidianas e não depende necessariamente de longos períodos de conversa.
Participar de tarefas domésticas, preparar uma refeição juntos ou simplesmente compartilhar alguns minutos de uma atividade familiar pode ajudar a fortalecer a sensação de pertencimento.
“Quanto mais conectados nós nos sentimos ao outro, mais facilidade esse outro tem de vir e se abrir para nós.”
A médica também defende que os pais permitam que os filhos participem das atividades da família, desenvolvendo autonomia e a percepção de que são capazes de contribuir.
Para ela, essas pequenas interações ajudam a construir uma relação de proximidade que pode facilitar a comunicação quando surgir alguma dificuldade.
Presença, observação e diálogo
Ao final da entrevista, Larissa resumiu as principais orientações para pais, responsáveis, professores e outros adultos que convivem com crianças e adolescentes.
A primeira é a presença de verdade, que, segundo ela, não significa necessariamente passar horas conversando, mas estar disponível e interessado.
“Presença não se mede em horas. Ela se mede em disponibilidade.”
A segunda é a observação. Mudanças no sono, na alimentação, no comportamento, no rendimento escolar, na socialização ou o surgimento de dores recorrentes podem indicar que algo precisa ser investigado.
A terceira é a conversa sem julgamento. Larissa recomenda demonstrar preocupação e permitir que a criança ou o adolescente fale sobre seus sentimentos antes de receber uma opinião ou correção.
“Valide os sentimentos antes de corrigir ou de dar uma opinião.”
A quarta orientação é não esperar uma situação de crise para procurar ajuda.
“Se você está vendo uma faísca, não espere o incêndio. É muito mais difícil cuidarmos quando a situação chega à crise.”
Em situações de sofrimento emocional, a orientação é buscar ajuda profissional. A médica também citou durante a entrevista serviços como o CVV, pelo telefone 188, além da rede pública de saúde, incluindo os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), e profissionais de confiança na rede particular.
Para Larissa, a identificação e o cuidado precoces podem fazer diferença no desenvolvimento de crianças e adolescentes.
“É muito importante cuidarmos cedo e falarmos muito sobre esse assunto.”
A entrevista reforçou que o cuidado com a saúde mental de crianças e adolescentes não deve ficar restrito a períodos de campanha. Família, escola e profissionais de saúde têm papéis complementares na identificação de sinais, no acolhimento e na busca por atendimento adequado.
Confira a entrevista completa clicando aqui.
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Por Guilherme Pacheco, da redação da Jovem Pan News Vitória.







