A Fecomércio-ES defende que a discussão e eventual votação da proposta que prevê mudanças na escala de trabalho 6×1 ocorram somente depois das eleições. A posição foi explicada pelo vice-presidente da entidade, José Carlos Bergamin, em entrevista ao programa De Olho na Cidade, da Jovem Pan News Vitória.

Em conversa com a jornalista Tatiana Sobreira, Bergamin afirmou que a entidade não é contrária à melhoria das condições de trabalho, mas considera necessário ampliar o debate técnico sobre os impactos de uma eventual mudança na jornada, principalmente para os setores que dependem intensivamente de mão de obra.

A posição da Fecomércio-ES acompanha uma mobilização nacional coordenada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), que defende que a discussão não avance no período eleitoral.

“Estamos fazendo o possível para que o bom senso retorne e que possamos fazer isso depois.”

Fecomércio defende mais tempo para discutir a escala 6×1

Durante a entrevista, Bergamin explicou que a preocupação do setor empresarial não está relacionada apenas à quantidade de horas trabalhadas, mas ao impacto que uma alteração abrupta na jornada pode provocar sobre empresas, trabalhadores, preços e empregos.

Segundo ele, existem setores mais estruturados e automatizados que teriam maior capacidade de absorver uma mudança, enquanto atividades intensivas em mão de obra poderiam enfrentar aumento significativo dos custos.

“Nós temos setores muito estruturados que aguentariam esta escala, mas aqueles que são intensivos de mão de obra receberão uma carga que é insustentável ou repassarão para os preços.”

O vice-presidente da Fecomércio-ES também argumentou que uma mudança nas regras trabalhistas precisa considerar as diferenças entre os segmentos econômicos e os diferentes perfis de trabalhadores.

Bergamin cita juros, impostos e inadimplência como fatores de pressão

Na entrevista, José Carlos Bergamin apontou ainda um conjunto de fatores que, segundo ele, já pressiona o comércio brasileiro. Entre eles estão os juros elevados, o custo do crédito, a inadimplência, a carga tributária e as incertezas relacionadas à reforma tributária.

O dirigente também citou a concorrência do comércio eletrônico e os efeitos da chamada “taxa das blusinhas” sobre o varejo tradicional.

Para Bergamin, a discussão sobre a escala 6×1 não pode ser analisada isoladamente diante desse cenário.

“Temos um conjunto de dificuldades, como um dos maiores juros do mundo, uma das maiores cargas tributárias do mundo, uma sociedade e empresas muito inadimplentes, além das incertezas da reforma tributária.”

Segundo ele, o impacto tende a ser maior justamente sobre pequenos negócios e empresas cuja folha de pagamento representa parcela significativa dos custos.

Mudança na jornada pode elevar custos de setores intensivos em mão de obra

Bergamin explicou que uma das principais preocupações da Fecomércio está relacionada às empresas que precisam ampliar o número de funcionários para manter a mesma operação diante de uma redução da jornada ou alteração da escala.

Ele afirmou que o impacto pode ser significativamente diferente entre empresas automatizadas e negócios que dependem diretamente do trabalho de pessoas.

“Se eu tenho um empregado e coloco mais um, eu estou aumentando meu custo em 100%. Se eu tenho dois e coloco mais um, eu estou aumentando em 50%.”

O vice-presidente da entidade destacou ainda a importância dos pequenos negócios para a economia brasileira e afirmou que mudanças nas regras trabalhistas precisam levar em conta as diferentes realidades regionais e empresariais.

Entidade diz não ser contra melhoria das condições de trabalho

Ao longo da conversa, Bergamin procurou diferenciar a posição empresarial de uma suposta oposição à melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores.

Segundo ele, as relações de trabalho já possuem regras destinadas a garantir direitos, condições de segurança, intervalos e limites de jornada. A discussão, na avaliação dele, deveria avançar principalmente sobre a forma de organizar diferentes modelos de trabalho e remuneração.

Bergamin defendeu maior flexibilidade nas relações trabalhistas, desde que sejam preservadas as condições de saúde e bem-estar dos trabalhadores.

“Nós precisamos descomprimir. Nós precisamos flexibilizar. Nós precisamos de liberdade.”

Fecomércio defende negociação e transição

Outro ponto destacado pelo vice-presidente da Fecomércio-ES foi a necessidade de considerar diferentes modelos de jornada e uma possível transição antes de uma mudança definitiva na legislação.

Segundo Bergamin, trabalhadores possuem necessidades distintas: alguns podem preferir trabalhar menos horas, enquanto outros podem optar por jornadas diferentes para aumentar a renda. Na avaliação dele, essas particularidades deveriam ser consideradas na formulação das novas regras.

O dirigente também afirmou que a entidade mantém diálogo com sindicatos e outras categorias e que o debate deveria envolver trabalhadores, empregadores e representantes do poder público.

“Nós estamos falando de coisas múltiplas, numa relação de trabalho completamente alterada, em que as preferências dos trabalhadores são diversas e as necessidades da sociedade e, consequentemente, das empresas para atendê-las são muito diferentes.”

Entidade considera momento eleitoral inadequado para votação

Para Bergamin, a principal reivindicação da Fecomércio-ES e da CNC é que o Congresso tenha mais tempo para discutir os impactos da proposta antes de uma eventual votação.

Ele afirmou que a mobilização do setor empresarial já vinha sendo realizada antes de o tema ganhar velocidade no Congresso e que a expectativa era de que a discussão ocorresse após as eleições, em um ambiente considerado mais adequado para o aprofundamento técnico.

“Um assunto dessa magnitude, dessa importância e de um impacto enorme em toda a relação de emprego que nós temos jamais deveria ser discutido ou colocado para votação sem discussão, sem aprofundamento técnico, no calor das emoções de um momento eleitoral.”

Bergamin afirmou que a entidade espera que a votação seja adiada e que ainda trabalha para convencer os parlamentares sobre a necessidade de ampliar o debate.

“Enquanto o painel não mostrar a votação lá, nós estamos trabalhando, pois ainda há chance para o bom senso retornar.”

Quer entender melhor os argumentos do comércio capixaba sobre a escala 6×1 e os impactos das mudanças nas relações de trabalho? Confira a entrevista completa com José Carlos Bergamin nos canais digitais da Jovem Pan News Vitória, no YouTube e nas redes sociais.

Por Guilherme Pacheco, da redação da Jovem Pan News Vitória

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