No De Olho na Cidade desta quarta-feira (1º), a jornalista Tatiana Sobreira entrevistou o engenheiro eletricista Rogério Mobília, ex-coordenador de missões humanitárias da Organização das Nações Unidas (ONU) e especialista em gestão de crises e desastres internacionais. Ao longo da conversa, ele compartilhou experiências acumuladas em mais de três décadas de atuação em conflitos armados, terremotos, furacões e outras grandes emergências ao redor do mundo, defendendo que a maior lição deixada por essas tragédias é a necessidade de investir na preparação e fortalecer o compromisso coletivo com a vida.

Formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Mobília contou que iniciou a carreira desenvolvendo sistemas tecnológicos para grandes empresas brasileiras. Em 1995, porém, recebeu um convite inesperado para trabalhar na ONU, em Angola, país que vivia os impactos de décadas de guerra civil.

Segundo ele, a decisão foi tomada em um período em que ainda havia poucas informações sobre o destino para onde seguiria, mas acabou mudando completamente sua trajetória profissional e pessoal.

“Se eu pudesse conversar hoje com aquele jovem engenheiro de 26 anos, diria apenas uma coisa: você acertou na sua decisão. Nem todos os caminhos estavam claros, mas faria tudo de novo”, afirmou.

Ao chegar ao continente africano, Rogério passou a integrar uma das maiores operações de manutenção da paz conduzidas pela ONU na época. Inicialmente, seu trabalho estava voltado ao desenvolvimento de sistemas tecnológicos para apoiar o processo de desmobilização militar.

Com o passar dos anos, entretanto, ele percebeu que os maiores desafios não estavam nos equipamentos, mas nas pessoas.

Segundo o especialista, essa mudança de percepção deu origem ao conceito que passou a utilizar em suas palestras: o “humanware”, expressão criada por ele para representar o fator humano dentro das organizações.

“Não adianta investir em hardware nem desenvolver o melhor software se as pessoas não estiverem comprometidas com a causa. São elas que fazem qualquer sistema funcionar”, explicou.

A transformação aconteceu no contato com as pessoas

Durante a entrevista, Rogério relembrou que as experiências mais marcantes aconteceram nas regiões devastadas por guerras e desastres naturais.

Ao visitar comunidades completamente isoladas, ele conta que passou a observar algo que modificou sua forma de enxergar o trabalho humanitário.

“Sempre me perguntava como aquelas crianças ainda conseguiam sorrir em condições tão difíceis. Foi ali que comecei a entender que meu trabalho era muito maior do que desenvolver tecnologia.”

Ele explicou que, ao longo da carreira, deixou de atuar apenas como engenheiro para capacitar governos, equipes de resgate e profissionais responsáveis por coordenar grandes operações humanitárias em diversos países.

Coordenação internacional salva vidas

Rogério explicou que uma das funções da ONU é organizar a atuação de dezenas de países durante grandes desastres, permitindo que equipes de diferentes nacionalidades trabalhem seguindo protocolos únicos.

Segundo ele, esse planejamento evita desperdício de recursos e torna as operações mais rápidas.

Como exemplo, citou a atuação em terremotos, furacões e outros eventos extremos, quando bombeiros, médicos e especialistas utilizam símbolos padronizados para identificar locais já vistoriados, áreas de risco e regiões que ainda precisam receber atendimento.

“O objetivo é fazer todo mundo falar o mesmo idioma durante as operações de resposta aos desastres”, explicou.

Venezuela reacende debate sobre preparação

Ao comentar o terremoto que mobilizou equipes internacionais para a Venezuela, Rogério afirmou que tragédias dessa natureza reforçam a importância da prevenção.

Segundo ele, embora terremotos não possam ser evitados, seus impactos podem ser significativamente reduzidos quando governos investem em planejamento urbano, normas de engenharia e preparação das comunidades.

“O terremoto não avisa que vai acontecer. Mas nós sabemos onde estão as áreas de risco. O Japão mostra que é possível reduzir drasticamente os impactos quando existe preparação”, afirmou.

Ele destacou que muitos países conhecem seus riscos naturais, mas deixam de investir preventivamente.

“Somos livres para fazer escolhas, mas seremos sempre prisioneiros das consequências dessas escolhas”, ressaltou.

O maior desafio é cuidar das pessoas

Ao longo da conversa, Rogério lembrou que liderou operações em diferentes continentes, incluindo África, América Latina e Caribe, trabalhando em conflitos armados, terremotos, enchentes e furacões.

Segundo ele, um dos episódios que mais marcou sua trajetória ocorreu após o terremoto no Paquistão, em 2005.

Na ocasião, durante uma ligação para casa, sua filha, então com quatro anos, perguntou quando ele voltaria. Ao explicar que permanecia no país porque muitas pessoas haviam morrido, ouviu uma resposta que jamais esqueceu.

“Ela respondeu: ‘Então você já pode voltar, porque quem precisava de ajuda já morreu’. Aquilo mudou completamente a forma como eu enxergava o trabalho humanitário.”

O engenheiro explicou que, naquele momento, compreendeu que a missão dos profissionais da área não termina com o resgate das vítimas.

Segundo ele, o maior desafio é reconstruir comunidades inteiras, restaurando infraestrutura, moradias, escolas, hospitais, sistemas de água, energia e comunicação.

Preparação começa antes da tragédia

Durante a entrevista, Rogério destacou que grande parte do trabalho realizado pela ONU acontece antes das emergências.

Segundo ele, governos precisam desenvolver planos de contingência, capacitar equipes locais e preparar a população para responder rapidamente aos desastres.

Ele explicou que os primeiros socorristas quase nunca são os profissionais especializados.

“Os primeiros socorristas de verdade são a própria comunidade: vizinhos, amigos e familiares”, afirmou.

Conectar pessoas continua sendo sua missão

Após se aposentar da ONU, Rogério contou que encerrou um ciclo profissional, mas decidiu continuar atuando na formação de novos líderes, estudantes universitários e equipes de gestão de crises.

Segundo ele, seu objetivo agora é compartilhar o conhecimento adquirido ao longo de mais de 30 anos em missões internacionais.

“Hoje quero conectar pessoas. Quero inspirar jovens, formar líderes e ajudar quem cuida de outras pessoas”, destacou.

Ao encerrar a entrevista, o especialista reforçou que tragédias naturais e conflitos armados revelam uma verdade comum: independentemente de nacionalidade, religião, condição financeira ou posição política, todos dependem da solidariedade coletiva.

A entrevista completa, em formato de vídeo, está disponível no canal do YouTube da Jovem Pan News Vitória | 98.1 FM e pode ser conferida clicando aqui.

Guilherme Pacheco, da redação da Jovem Pan News Vitória

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