Uma das principais atrações da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2026, a filósofa, escritora e ativista norte-americana Angela Davis voltou a provocar reflexões sobre racismo, democracia e direitos humanos durante entrevista concedida antes de sua participação no evento. Aos 82 anos, ela afirmou que a supremacia branca nos Estados Unidos não representa um fenômeno recente, mas sim uma realidade histórica que se tornou mais explícita nos últimos anos.

Segundo Davis, “os supremacistas brancos apenas saíram do armário”, rebatendo a ideia de que esse movimento tenha surgido ou crescido exclusivamente com a ascensão de Donald Trump. Para ela, essas correntes sempre estiveram presentes na sociedade norte-americana e passaram a se manifestar de forma mais aberta no atual cenário político.

A ativista também defendeu que o trumpismo não representa necessariamente o pensamento da maioria dos cidadãos dos Estados Unidos, mas reconheceu que a polarização política ampliou o espaço para discursos extremistas e grupos que antes atuavam de maneira menos visível.

Palestina, antissemitismo e sistema prisional também estiveram no centro da entrevista

Durante a conversa, Angela Davis abordou outros temas que marcaram sua trajetória acadêmica e política. Ao comentar o conflito no Oriente Médio, afirmou que a solidariedade ao povo palestino não deve ser automaticamente confundida com antissemitismo, avaliação que, segundo ela, tem sido utilizada por setores conservadores para deslegitimar críticas às ações militares de Israel.

A filósofa reafirmou ainda sua defesa da chamada abolição do sistema prisional, proposta que há décadas integra sua produção intelectual. Para Davis, o encarceramento em massa não resolve os problemas estruturais da violência e aprofunda desigualdades sociais e raciais.

Ela também avaliou que os movimentos progressistas enfrentam dificuldades para construir formas mais eficazes de organização política diante do crescimento de discursos conservadores em diferentes partes do mundo.

Referência internacional dos direitos civis

Reconhecida internacionalmente pela atuação em defesa dos direitos civis, Angela Davis ganhou notoriedade mundial nos anos 1970, quando foi presa nos Estados Unidos sob acusação de envolvimento em um caso de sequestro e homicídio. Absolvida posteriormente, tornou-se um dos principais símbolos da luta contra o racismo, o encarceramento em massa e as desigualdades sociais.

Autora de obras como Mulheres, Raça e Classe e A Liberdade é uma Luta Constante, Davis mantém intensa produção acadêmica voltada ao feminismo negro, à justiça racial e aos direitos humanos. Sua participação na Flip marca a primeira presença da intelectual na programação oficial do evento literário.

Debate acompanha cenário internacional de polarização

As declarações da ativista ocorrem em um momento em que diversos países registram crescimento da polarização política e da atuação de grupos extremistas. Organismos internacionais, como as Nações Unidas, têm alertado para o aumento dos discursos de ódio, do racismo e da intolerância em ambientes digitais e presenciais, defendendo o fortalecimento das instituições democráticas e das políticas de proteção aos direitos humanos.

Nesse contexto, a participação de Angela Davis na Flip amplia o debate sobre democracia, igualdade racial e liberdade de expressão, temas que seguem no centro das discussões políticas e sociais em diferentes regiões do mundo.

Fonte e foto: Folha de S.Paulo; Flip 2026. (Folha de S.Paulo)

Edição: Tatiana Sobreira, da redação Jovem Pan News Vitória

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