Lançado em março deste ano, o Atlas das Mulheres do Espírito Santo já é tratado como um dos mais amplos levantamentos sobre gênero produzidos no Brasil. Resultado de uma articulação entre pesquisa científica, escuta territorial e dados estatísticos, o estudo reúne mais de 600 páginas de conteúdo — ou, como definiu a jornalista Tatiana Sobreira durante o programa De Olho Na Cidade da última quinta-feira (15), “quatro quilos de informação”.
Em entrevista concedida à Jovem Pan News Vitória, a coordenadora do projeto, Jaqueline Sanz, detalhou os bastidores da construção do Atlas, considerado um trabalho inédito no país pela abrangência metodológica e pelo foco em ouvir mulheres diretamente em seus territórios.
O material completo está disponível gratuitamente no portal da Secretaria Estadual das Mulheres do Espírito Santo.
Mais do que um compilado estatístico, o Atlas nasce como instrumento de formulação de políticas públicas baseadas em evidências. A proposta, segundo Jaqueline, foi compreender “o que é ser mulher” a partir das múltiplas realidades femininas presentes no Espírito Santo.
“Não existe só uma mulher. Existem mulheres com vivências completamente diferentes, atravessadas por raça, território, renda, religião, maternidade, trabalho e violência”, afirmou a coordenadora durante a entrevista.
Pesquisa percorreu o Espírito Santo para ouvir mulheres nos próprios territórios
O projeto começou a ser estruturado após a criação da Secretaria Estadual das Mulheres, em 2023, durante a gestão do governador Renato Casagrande. A iniciativa foi conduzida em parceria com instituições de pesquisa, universidades, movimentos sociais e coletivos femininos.
Ao longo da execução, pesquisadoras percorreram mais de 16 mil quilômetros pelo Espírito Santo para realizar rodas de conversa com mulheres quilombolas, indígenas, pescadoras, agricultoras, ciganas, mulheres privadas de liberdade, mães atípicas, lideranças religiosas, cientistas, mulheres da política e moradoras de periferias.
Foram realizadas 95 rodas de conversa e aplicados mais de 1,4 mil formulários considerados válidos para análise qualitativa e quantitativa.
Segundo Jaqueline, uma das principais preocupações foi evitar a chamada “política pública de gabinete”.
“Não adianta pensar políticas sem ouvir quem vive a realidade. A gente precisava reconhecer essas mulheres como vozes fundamentais dentro do Estado”, destacou.
A pesquisa identificou padrões emocionais recorrentes entre as entrevistadas. Entre os sentimentos mais citados aparecem realização, orgulho, esperança e independência. Ao mesmo tempo, também surgem com força palavras como exaustão, sobrecarga, solidão, ansiedade, medo e culpa.
De acordo com a coordenadora, o levantamento mostra que muitas mulheres se sentem realizadas por terem conquistado espaços sociais e profissionais, mas também exaustas diante da sobrecarga provocada pela dupla ou tripla jornada de trabalho.
“Sete em cada dez mulheres relataram trabalhar fora e ainda serem as principais responsáveis pelo cuidado da casa e da família”, explicou.
A palavra “cuidadora” apareceu de forma recorrente nos formulários aplicados pelas pesquisadoras, evidenciando como o trabalho não remunerado segue concentrado nas mulheres.
Um documento histórico sobre as mulheres capixabas
Durante a entrevista, Tatiana Sobreira definiu o Atlas como “um livro sobre a história das mulheres no Espírito Santo”. A avaliação é compartilhada pela própria coordenação do projeto, que entende o levantamento como um registro histórico da presença feminina no estado.
Além da versão impressa, o Atlas pode ser acessado gratuitamente nos canais digitais da Secretaria Estadual das Mulheres e da Biblioteca Rui Tendinha – Incaper.
O material foi desenvolvido com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo, Instituto Jones dos Santos Neves, Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural, Secretaria de Direitos Humanos do Espírito Santo, Secretaria da Justiça do Espírito Santo e Secretaria da Cultura do Espírito Santo.
A entrevista completa está disponível no canal da Jovem Pan News Vitória.
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Por Guilherme Pacheco, da redação da Jovem Pan News Vitória







