Uma fibra vegetal que pode ser encontrada na natureza está sendo transformada em uma possível aliada no combate à contaminação da água por resíduos industriais.
Pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) estão testando uma tecnologia para retirar óleos minerais emulsificados da água utilizando fibras naturais. O estudo é desenvolvido pelo Programa de Pós-Graduação em Energia (PPGEN), no Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes), em São Mateus.
A pesquisa utiliza principalmente a fibra da Calotropis procera, conhecida popularmente como flor-de-seda. Também estão sendo estudadas fibras de outras plantas, como a sumaúma e a taboa.
A proposta é desenvolver um sistema de filtragem que possa ser utilizado no tratamento de efluentes produzidos por atividades como indústrias, oficinas mecânicas e postos de combustíveis.
Pesquisa une Espírito Santo e Amazonas
O projeto também envolve uma parceria entre pesquisadores da Ufes e da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
O trabalho faz parte do projeto “Fibras Naturais para Remoção de Óleo em Água”, coordenado pelo professor Eduardo Muniz, da Ufes, em parceria com o professor Nazareno Braga, da Ufam.
A pesquisa reúne trabalhos de pós-graduação e também estudos de iniciação científica desenvolvidos por estudantes de graduação.
Como funciona o filtro natural
O problema enfrentado pelos pesquisadores está em um tipo específico de contaminação.
Óleos utilizados na lubrificação de máquinas, veículos e equipamentos podem chegar à água. Parte desse material é relativamente fácil de separar por processos convencionais. Já o chamado óleo emulsificado, que fica disperso na água em pequenas partículas, é mais difícil de ser retido.
É justamente nessa etapa que a pesquisa da Ufes pretende atuar.
A fibra da flor-de-seda possui uma estrutura oca e tubular. Nos experimentos, são utilizadas quatro camadas do material para realizar a filtragem.
Segundo o professor Eduardo Muniz, coordenador do Laboratório de Medidas de Propriedades Físicas de Materiais do PPGEN, um grama da fibra é capaz de reter cerca de 80 gramas de óleo.
O resultado ainda está em fase de pesquisa, mas indica um potencial importante para o desenvolvimento de sistemas de tratamento mais eficientes.
Por que retirar óleo da água é tão importante?
Quando o óleo chega aos rios e lagos, pode formar uma camada sobre a superfície da água.
Essa película dificulta a troca de gases com a atmosfera e reduz a oxigenação da água, provocando impactos sobre os organismos aquáticos.
Além disso, resíduos de óleo apresentam, em geral, baixa biodegradabilidade, o que significa que podem permanecer no ambiente por períodos prolongados.
Por isso, encontrar métodos eficientes para remover esse material antes que o efluente seja lançado no ambiente é uma etapa importante do tratamento.
Uma solução que pode consumir menos energia
Um dos diferenciais estudados pela equipe é a possibilidade de utilizar um material natural em um sistema de filtragem com potencial para reduzir o consumo de energia.
A Ufes informa que os resultados já alcançados apontam para uma alternativa que pode apresentar menor consumo de energia no tratamento.
A tecnologia também pode ter vantagem relacionada ao custo da matéria-prima, já que utiliza fibras vegetais.
Mas os pesquisadores ainda precisam avançar nos testes antes de falar em aplicação industrial em larga escala.
Outras plantas também estão sendo testadas
A pesquisa não está concentrada em apenas uma espécie.
Além da Calotropis procera, os cientistas vão analisar fibras de Ceiba pentandra, a sumaúma, e Typha domingensis, conhecida como taboa.
A taboa, inclusive, é uma planta bastante comum no Espírito Santo.
O objetivo é comparar as características das fibras e entender como sua estrutura interfere na capacidade de absorver o óleo.
A partir desses resultados, a equipe poderá identificar quais materiais apresentam maior potencial para a construção de filtros.

Da planta ao possível filtro industrial
A próxima etapa é entender se a solução desenvolvida em laboratório pode ser adaptada para uma escala maior.
Os pesquisadores estão avaliando diferentes plantas e suas propriedades para verificar a possibilidade de, no futuro, produzir o filtro em escala industrial.
Isso significa transformar uma fibra encontrada na natureza em parte de uma tecnologia destinada a um problema bastante concreto: o tratamento de águas contaminadas por atividades industriais.
Ainda há um caminho de testes pela frente, mas a pesquisa mostra como a biodiversidade pode inspirar soluções tecnológicas para problemas ambientais.
Ciência que olha para a natureza
A pesquisa desenvolvida no Norte do Espírito Santo chama atenção justamente pela simplicidade da ideia.
Em vez de buscar somente materiais sintéticos ou processos complexos, os pesquisadores estão investigando o potencial de fibras encontradas em plantas.
É um exemplo de como a ciência pode transformar características da natureza em ferramentas para proteger a própria natureza.
Fonte: Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Imagens: Acervo dos pesquisadores
Edição: Tatiana Sobreira – Jovem Pan News Vitória







