A exposição “190 Caminhos da Cidadania”, em cartaz na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) até o próximo 31 de julho, propõe muito mais do que uma viagem pela história do parlamento capixaba. Para o curador Ronaldo Barbosa, a mostra representa uma oportunidade de refletir sobre democracia, representatividade e o papel das instituições na construção da cidadania.

Em entrevista exclusiva ao programa Olho na Cidade, apresentado pela jornalista Tatiana Sobreira, na Jovem Pan News Vitória, Ronaldo revelou que a exposição marcou um momento especial em sua trajetória profissional: seu retorno ao cenário expositivo nacional após um período dedicado a outros projetos desenvolvidos depois de sua saída do Museu Vale.

“Essa exposição foi extremamente desafiadora para mim. Ela representa um retorno ao circuito das artes e da curadoria em uma dimensão muito significativa. Depois da pandemia, eu me dediquei a outros caminhos e projetos pessoais, então voltar com uma mostra dessa complexidade foi também um reencontro com minha própria história profissional”, afirmou.

Hoje, Ronaldo Barbosa, além do desing e curadorias, dedica parte do seu trabalho a uma residência artística em Pedra Azul, na região serrana do Espírito Santo, onde recebe artistas para intercâmbios, processos criativos e trocas de experiências culturais.

Arte para discutir poder e democracia

Responsável pela concepção expográfica e pela curadoria da exposição, Ronaldo buscou construir uma narrativa que aproximasse a população da trajetória da Assembleia Legislativa e dos processos de construção democrática no Espírito Santo.

Segundo ele, a proposta foi transformar quase dois séculos de história política em uma experiência acessível ao grande público.

“A exposição propõe uma nova narrativa sobre esse espaço e sobre a própria história capixaba. Transformar 190 anos em uma experiência acessível é um desafio, mas também uma oportunidade de ampliar a consciência histórica em um momento em que a democracia é fundamental”, destacou o curador.

A mostra reúne documentos históricos inéditos, recursos audiovisuais e obras de artistas contemporâneos convidados especialmente para compor os ambientes instalados no hall da Assembleia Legislativa.

“A arte tem a capacidade de mostrar as dimensões do poder. Ela provoca, questiona e convida à reflexão. Era importante que a exposição não fosse apenas contemplativa, mas também despertasse debates”, explicou Ronaldo durante a entrevista.

Mulheres no parlamento: uma ausência transformada em reflexão

Um dos aspectos que mais chamaram a atenção do curador durante o processo de pesquisa foi a baixa representatividade feminina na história do Legislativo estadual.

Ao longo dos 190 anos da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, apenas 17 mulheres ocuparam cadeiras no parlamento capixaba.

A informação foi incorporada ao percurso expositivo como forma de estimular o debate sobre participação política e igualdade de gênero.

“Quando nos deparamos com esse dado, entendemos que ele precisava estar presente na exposição. A arte também serve para evidenciar ausências e provocar perguntas. Por que tão poucas mulheres ocuparam esses espaços? O que isso revela sobre nossa sociedade?”, questionou.

Educação e formação cidadã

Outro eixo central da mostra é a educação.

A exposição conta com um projeto de arte-educação voltado especialmente para estudantes, buscando aproximar crianças e adolescentes da história política capixaba e do funcionamento do Poder Legislativo.

Segundo Ronaldo Barbosa, despertar o interesse dos jovens pela cidadania é uma das maiores contribuições que o projeto pode deixar.

“Entender como as decisões políticas influenciam o cotidiano das pessoas é fundamental. Esperamos que os estudantes saiam daqui compreendendo que a democracia é construída diariamente e que eles também fazem parte desse processo.”

O curador afirmou ainda que espera ver a exposição se tornar permanente.

“Seria muito importante que esse patrimônio continuasse acessível para futuras gerações. Essa é uma história que pertence a todos os capixabas.”

Pesquisa inédita reconta a história da Ales

A exposição é resultado de 18 meses de pesquisa histórica, desenvolvida por meio de convênio entre a Assembleia Legislativa e a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Durante o trabalho, professores, estudantes e arquivistas localizaram documentos inéditos e reorganizaram informações que mudam parte da compreensão sobre a própria trajetória da instituição.

Entre as descobertas estão:

  • a identificação de oito sedes diferentes ocupadas pela Assembleia ao longo da história;
  • o levantamento de aproximadamente 856 parlamentares que passaram pela Casa desde 1835;
  • documentos datados de 1829, anteriores à fundação oficial da Ales, contendo petições coletivas, solicitações feitas por mulheres e debates sobre escravidão, infraestrutura e cidadania.

Arte contemporânea dialoga com a história

A exposição também promove o encontro entre patrimônio histórico e produção artística contemporânea.

Oito artistas capixabas foram convidados para desenvolver obras inéditas inspiradas em valores ligados à democracia e à cidadania.

Participam da mostra:

  • Ana Luzes;
  • Andreia Falqueto;
  • Bola;
  • Carlo Schiavini & Elvys Chaves;
  • Lando;
  • Rick Rodrigues;
  • Re Henri;
  • Sandro Novaes.

Entre os destaques históricos está a tela “Partida de Arariboia”, de Levino Fânzeres, considerada a maior pintura a óleo do Espírito Santo, com 4,75 metros de largura e aproximadamente 600 quilos.

Serviço

Exposição: 190 Caminhos da Cidadania

Período: até 31 de julho de 2026

Horário: segunda a sexta-feira, das 8h às 18h

Local: Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales)

Entrada: gratuita

Informações: www.ales190anos.com.br

Fonte: Entrevista exclusiva de Ronaldo Barbosa ao programa Olho na Cidade; Assembleia Legislativa do Espírito Santo.

Edição e foto: Tatiana Sobreira, da redação da Jovem Pan News Vitória.

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