Em entrevista à Jovem Pan News Vitória, Ricardo Augusto destacou a responsabilidade compartilhada entre empresas, poder público e sociedade na gestão de resíduos

A economia circular, a gestão de resíduos sólidos e o desenvolvimento de soluções sustentáveis estão entre os temas do Recicla Summit 2026, que termina nesta quarta-feira (21), em Vitória. Em sua terceira edição, o evento reúne especialistas, empresas e iniciativas voltadas à reciclagem e à sustentabilidade, com o objetivo de discutir caminhos para transformar resíduos em recursos e fortalecer a economia capixaba.

No De Olho na Cidade da última terça-feira (20), a jornalista Tatiana Sobreira entrevistou Ricardo Augusto Oliveira, gestor da Refibra Reciclagem e diretor do Sindirecicle-ES, para falar sobre os desafios da economia circular, as políticas públicas de reciclagem no Espírito Santo e o papel das empresas na destinação adequada dos resíduos.

Com o tema “Cidades que reciclam, territórios que prosperam”, o Recicla Summit apresenta experiências e iniciativas que buscam integrar desenvolvimento econômico, preservação ambiental e inclusão social. A programação ocorre no auditório da Findes, em Vitória, com entrada gratuita mediante inscrição.

Economia circular vai além da reciclagem

Durante a entrevista, Ricardo explicou que a economia circular envolve toda a cadeia produtiva, desde a extração da matéria-prima até o consumo e a destinação dos produtos após o fim de sua vida útil. O modelo propõe uma alternativa à economia linear, em que os recursos são extraídos, transformados em produtos e descartados após o uso.

Na economia circular, a proposta é fazer com que os materiais retornem à cadeia produtiva, reduzindo o desperdício e a necessidade de extrair novos recursos naturais.

“Quando falamos de economia circular, não podemos nos limitar somente à reciclagem. É uma maneira de produzir e consumir diferente”, afirmou o gestor.

Segundo Ricardo, a mudança exige que a sustentabilidade seja considerada em todas as etapas de produção. Isso inclui utilizar matérias-primas de maneira mais responsável, desenvolver produtos que possam ser reciclados e estruturar mecanismos para que os resíduos retornem à indústria.

Um exemplo citado pelo especialista é o das garrafas PET coloridas. Dependendo do material e dos processos utilizados, a coloração pode dificultar a reciclagem. Por isso, o desenvolvimento de embalagens que facilitem o reaproveitamento é uma das medidas necessárias para ampliar a circularidade dos produtos.

Espírito Santo avança na logística reversa

Na avaliação de Ricardo, o Espírito Santo apresenta avanços na estruturação de políticas públicas voltadas à reciclagem e à destinação de resíduos. Entre as iniciativas mencionadas está o decreto estadual de logística reversa, que estabelece obrigações para empresas que colocam determinados produtos e materiais em circulação.

A logística reversa prevê mecanismos para que produtos e embalagens retornem ao setor produtivo após o uso, permitindo o reaproveitamento ou a destinação ambientalmente adequada.

O gestor ressaltou, porém, que a responsabilidade não deve ficar restrita ao poder público. Empresas, indústrias e consumidores também precisam participar desse processo.

“É uma cadeia compartilhada. Não cabe só ao poder público; cabe também à sociedade civil, às empresas e às indústrias”, destacou.

Ricardo também apontou a necessidade de ampliar a conscientização sobre a separação dos resíduos domésticos. Materiais como pilhas e baterias, por exemplo, exigem destinação específica e não devem ser descartados junto ao lixo comum.

Para ele, a mudança de comportamento depende de ações educativas e de políticas adaptadas à realidade de cada comunidade. Em vez de priorizar apenas multas e penalidades, o especialista defende o fortalecimento de associações de catadores, organizações comunitárias e condomínios, com incentivos para ampliar a participação da população.

“Não adianta taxarmos. Tem muita gente que fala: ‘Vamos multar, vamos taxar’. Eu não acho que o caminho seja esse. Acho que temos que entender a nossa característica, a nossa cultura e, a partir daí, fortalecer os instrumentos que temos”, afirmou.

Grandes geradores terão de se adequar às regras de resíduos sólidos

Outro tema abordado foi a revisão do Plano Estadual de Resíduos Sólidos e seus possíveis desdobramentos para empresas e estabelecimentos comerciais.

Ricardo explicou que a identificação e a responsabilização dos grandes geradores de resíduos devem ganhar importância nesse processo. A proposta é evitar que estabelecimentos que produzem volumes significativos de lixo tratem esses materiais como resíduos domésticos comuns.

Ao comentar as mudanças previstas, o gestor citou o exemplo de restaurantes que destinam seus resíduos como se fossem lixo residencial.

“Um restaurante que está ali no bairro, muitas vezes, vai colocar o lixo que gera como lixo comum, como se fosse um lixo residencial. Isso não vai poder acontecer mais”, explicou.

Dependendo das regras aplicáveis, esses geradores poderão precisar contratar empresas especializadas para realizar a coleta e a destinação adequada ou utilizar os mecanismos de serviço previstos pelo município.

O gestor também destacou que a indústria já desenvolve iniciativas de reaproveitamento de materiais, motivada tanto por compromissos ambientais quanto pela busca por eficiência e competitividade.

Como exemplo, citou o trabalho relacionado à circularidade da madeira no setor moveleiro capixaba, que busca aproveitar materiais que anteriormente seriam destinados a aterros.

A adequação às exigências ambientais também pode influenciar o acesso a mercados internacionais. Segundo Ricardo, empresas interessadas em exportar precisam demonstrar maior controle sobre suas cadeias de fornecimento, incluindo a origem dos materiais e as práticas adotadas ao longo da produção.

“Se uma indústria quiser exportar o material dela para a Europa, tem que comprovar toda a cadeia de fornecimento, deixar claro de onde vem, o que utiliza e se não existe exploração nessa cadeia”, ressaltou.

Na avaliação do especialista, esse cenário tende a ampliar a importância da sustentabilidade para empresas de diferentes setores, incluindo restaurantes e prestadores de serviços.

Recicla Summit reúne empresas e iniciativas sustentáveis

A terceira edição do Recicla Summit conta com a participação de empresas e projetos que apresentam soluções para o reaproveitamento de materiais e a destinação de resíduos.

Entre as iniciativas citadas por Ricardo estão o Projeto Sururu, que transforma cascas de moluscos em corretivo agrícola, e a Pneuvix, que atua na reciclagem de pneus para a produção de itens como pisos, materiais para academias e campos esportivos.

O evento também reúne iniciativas de reaproveitamento de materiais plásticos e móveis, demonstrando diferentes possibilidades de aplicação da economia circular.

Ao apresentar exemplos de soluções desenvolvidas por empresas e projetos participantes, Ricardo destacou a importância de transformar problemas ambientais em oportunidades de inovação.

“A necessidade é a mãe da criatividade. Quando você tem um problema, precisa encontrar uma solução”, afirmou o gestor ao comentar iniciativas de reaproveitamento de resíduos.

De acordo com o gestor, a organização mobiliza diretamente uma equipe central de aproximadamente dez pessoas, além de dezenas de empresas e outros participantes envolvidos na realização e na programação.

A proposta é aproximar empresas, especialistas e público interessado em sustentabilidade, criando oportunidades para compartilhar experiências e conhecer soluções que podem ser aplicadas em diferentes realidades.

O Recicla Summit 2026 termina nesta quarta-feira (21), às 18h, no auditório da Findes, em Vitória. A participação é gratuita, mediante inscrição, com possibilidade de cadastro presencial conforme as orientações da organização.

A entrevista completa com Ricardo Augusto Oliveira foi ao ar na terça-feira (20), no De Olho na Cidade, da Jovem Pan News Vitória.

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Por Guilherme Pacheco, da redação da Jovem Pan News Vitória

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