Em entrevista à Jovem Pan News Vitória, Nélio Hand, diretor executivo da AVES e da ASES, apontou desafios logísticos, concorrência interestadual e custos de insumos; setor reúne cerca de 20 mil empregos diretos
O Espírito Santo tem participação relevante na produção brasileira de ovos, frango e carne suína, mas deve encerrar 2026 com volumes semelhantes aos do ano anterior. O cenário foi apresentado por Nélio Hand, diretor executivo da Associação dos Avicultores do Estado do Espírito Santo (AVES) e da Associação de Suinocultores do Espírito Santo (ASES), em entrevista à jornalista Tatiana Sobreira no programa De Olho na Cidade da última quinta-feira (22).
Durante a conversa, Hand destacou que, enquanto a produção nacional desses segmentos deve crescer entre 2,5% e 3%, o mercado capixaba apresenta sinais de estabilidade e até possibilidade de retração em algumas atividades. Entre os fatores que pressionam o setor estão o custo da alimentação animal, as dificuldades logísticas e a concorrência de produtos provenientes de outros estados.
“Estamos percebendo que o mercado, como nós dizemos no popular, está andando de lado, principalmente aqui no estado do Espírito Santo”, afirmou.
Produção de frango e ovos deve permanecer estável
Segundo Hand, o Espírito Santo produziu aproximadamente 125 mil toneladas de frango em 2025. Para 2026, a expectativa é de um volume próximo de 120 mil toneladas, podendo se manter no mesmo patamar do ano anterior, a depender do fechamento dos números.
Na produção de ovos, o dirigente também apontou uma tendência de estabilidade, com possibilidade de redução. De acordo com os dados apresentados por ele na entrevista, o estado produz cerca de 14,5 milhões de ovos por dia.
A importância da atividade aparece também nos dados da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) 2025, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Santa Maria de Jetibá, na Região Serrana, liderou a produção nacional de ovos, com 352,5 milhões de dúzias ao longo do ano. O município registrou ainda o maior efetivo de galináceos do país, com 18,4 milhões de aves, das quais aproximadamente 15,1 milhões eram galinhas destinadas à produção de ovos.
O levantamento do IBGE também indica que a produção brasileira de ovos cresceu 5,7% em 2025, alcançando 5,7 bilhões de dúzias. O valor nacional da produção chegou a R$ 36,4 bilhões, alta de 13,9% em relação ao ano anterior.
Apesar do desempenho nacional, Hand avalia que o mercado capixaba enfrenta condições específicas que limitam o avanço da atividade.
Mercado capixaba depende de outras regiões para parte do abastecimento
A distribuição da produção varia entre os segmentos. Segundo Hand, aproximadamente 28% dos ovos produzidos no Espírito Santo ficam no próprio estado. O restante é comercializado principalmente no Rio de Janeiro, na Bahia e em Minas Gerais.
No caso do frango, a participação do mercado local é maior: cerca de 76% da produção capixaba permanece no Espírito Santo, enquanto o restante segue principalmente para Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
O dirigente avalia que a entrada de produtos de outros estados afeta a competitividade dos produtores locais. Na avaliação dele, a produção estadual de frango poderia atender integralmente à demanda capixaba caso não houvesse a concorrência que considera desigual.
A situação também aparece na suinocultura. De acordo com Hand, a produção local atende aproximadamente 30% do consumo de carne suína no estado, considerando a média nacional de consumo como referência.
“Essas duas proteínas não têm uma evolução nos últimos tempos a contento para poder satisfazer o mercado local”, disse, ao relacionar o cenário à concorrência interestadual e aos custos de produção.
Os indicadores citados na entrevista têm bases distintas: enquanto o IBGE contabiliza o efetivo de suínos existentes no estado, os números setoriais podem considerar o volume de animais abatidos. Por isso, os dados não devem ser comparados como se representassem a mesma medida.
Milho, soja e logística pressionam os custos
A alimentação animal é um dos principais componentes dos custos da avicultura e da suinocultura. Hand destacou que o milho e a soja, utilizados na fabricação das rações, estão entre os insumos que mais pesam nas despesas dos produtores capixabas.
Como o Espírito Santo depende do transporte de parte significativa desses produtos a partir de outras unidades da Federação, os custos de frete ampliam a pressão sobre a atividade. O dirigente também apontou limitações na infraestrutura de transporte como um obstáculo à competitividade.
“Hoje nós temos vivenciado o período de maior custo nesses dois insumos aqui no Espírito Santo, até porque somos dependentes da vinda da maior parte desses produtos de outros estados”, afirmou.
Mesmo diante das dificuldades, Hand ressaltou que os produtores capixabas apresentam bons índices de produtividade, qualidade e sanidade. Para ele, a combinação desses fatores mantém o potencial de expansão da atividade, desde que os gargalos externos à produção sejam enfrentados.
O dirigente afirmou que a capacidade produtiva disponível poderia permitir uma ampliação significativa da atividade em um período relativamente curto, caso as condições de mercado e infraestrutura fossem mais favoráveis.
Setor gera empregos e contribui para outras atividades agrícolas
Além do abastecimento alimentar, a avicultura e a suinocultura têm impacto sobre o mercado de trabalho e outras cadeias produtivas do Espírito Santo.
Segundo Hand, os dois segmentos reúnem aproximadamente 20 mil postos de trabalho diretos. Ele também estima que mais de 100 mil famílias dependam, de alguma maneira, dessas atividades, seja por meio do emprego direto, seja pela relação com a agricultura, o transporte e o fornecimento de insumos.
Um dos exemplos citados é a utilização de resíduos da produção avícola como adubo orgânico. Conforme o dirigente, o material é destinado a atividades agrícolas, incluindo a cafeicultura e a fruticultura, especialmente na Região Serrana.
Hand estima que a produção de adubo orgânico ligada ao setor ultrapasse 70 mil toneladas por mês. O material contribui para a integração entre as cadeias agropecuárias e outras atividades rurais.
Na suinocultura, o aproveitamento de dejetos para a produção de biogás e bioenergia também foi apontado como uma contribuição ambiental e econômica. A transformação desses resíduos em energia pode ampliar o aproveitamento dos recursos gerados pela atividade.
“Quanto mais nós conseguimos produzir localmente e deixar o produto internamente, melhor vai ser a receita do estado”, afirmou.
Associações querem diálogo com governos para 2027
Com a perspectiva de estabilidade da produção estadual, as entidades representativas pretendem levar as demandas do setor às autoridades públicas durante o período de transição política e no planejamento das ações para 2027.
Entre os temas considerados prioritários estão a defesa sanitária animal, a inspeção de produtos, os incentivos tributários, a infraestrutura logística e as condições de concorrência no mercado interno.
Hand ressaltou que a produção depende de uma relação permanente entre os produtores e o poder público, especialmente em áreas ligadas à fiscalização e à sanidade animal. Segundo ele, a solução desses entraves pode contribuir para ampliar a capacidade produtiva e melhorar as condições de competitividade.
“O produtor é sempre muito otimista, ele sempre quer ver o dia de amanhã da melhor forma possível, mas também é muito realista em relação a esses gargalos”, declarou.
O dirigente afirmou que AVES e ASES pretendem manter o diálogo com as autoridades para buscar medidas que favoreçam o desenvolvimento da avicultura e da suinocultura capixabas nos próximos anos.
A entrevista integrou a programação local da Jovem Pan News Vitória e abordou os desafios de produção, abastecimento, custos e expansão dos mercados para duas atividades importantes do agronegócio do Espírito Santo.
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Por Guilherme Pacheco, da redação da Jovem Pan News Vitória






