Os incêndios deste ano, colocou em evidência não apenas os efeitos da estiagem e do aquecimento global, mas também as divergências entre autoridades sobre a preparação e a resposta à crise.
Com dezenas de municípios em situação de emergência, fumaça atingindo Manaus e reforço federal nas operações, a sequência de decisões tomadas desde os primeiros alertas climáticos levanta questionamentos sobre a capacidade de prevenção e a coordenação entre os governos.
Dados do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), divulgados pela Agência Brasil, apontaram 1.380 focos de incêndio no estado entre 1º e 10 de outubro de 2026, contra 372 no mesmo período do ano passado — aumento de 271%. Nos dias 10 e 11 de outubro, a crise levou à mobilização de novas equipes e aeronaves para combater o fogo. E a população? Mai uma vez refém dos que precisam agir para proteger a floresta e quem vive na região.
A situação também afetou a rotina da capital amazonense. A concentração de partículas finas na atmosfera atingiu níveis classificados como péssimos, levando à suspensão de atividades presenciais e ao cancelamento de eventos ao ar livre. A fumaça que chega a Manaus está relacionada principalmente a incêndios registrados em outros municípios, segundo informações divulgadas pelas autoridades.
Governo federal mobiliza aeronaves e brigadistas
Em resposta à crise, o governo federal anunciou a mobilização de 11 aeronaves e 290 brigadistas para reforçar as operações no Amazonas. A estrutura envolve órgãos ambientais, Defesa Civil, Forças Armadas e equipes de saúde. O Ibama informou que havia extinguido 229 incêndios e continuava atuando em outros focos ativos, segundo balanço divulgado em 10 de outubro.
O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional reconheceu, em 10 de outubro, o decreto estadual de emergência que abrange 36 municípios. Segundo o ministro Waldez Góes, o reconhecimento foi fundamental para viabilizar o apoio federal. O governo federal também informou que realizou oficinas preparatórias com autoridades estaduais e municipais para discutir os riscos associados à estiagem, ao El Niño e aos incêndios florestais.
O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou, após sobrevoar áreas atingidas, que os incêndios são mais graves do que se imaginava e que a presença de fogo em áreas de floresta preservada pode indicar ação criminosa. A afirmação reforça a necessidade de investigação sobre a origem das chamas e de responsabilização dos envolvidos, sem presumir que todos os focos tenham a mesma causa.
Divergência sobre a ajuda e questionamentos à gestão estadual
A atuação do governo do Amazonas passou a ser questionada diante da divergência pública entre o comando do Corpo de Bombeiros e o governo federal. O comandante da corporação estadual afirmou que houve negativa ao pedido de aeronaves para apoiar o combate aos incêndios. Já o Ministério do Meio Ambiente sustentou que uma solicitação anterior de reforço havia sido cancelada pelo próprio governo estadual em 30 de setembro, depois que as chuvas reduziram temporariamente os focos de fogo.
Alertas de maio já indicavam risco associado ao El Niño
O risco climático não surgiu apenas em outubro. Em 8 de maio de 2026, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e o Censipam divulgaram uma nota técnica indicando aumento da probabilidade de formação do El Niño no segundo semestre. Naquele momento, a estimativa era de aproximadamente 60% de chance de ocorrência do fenômeno em 2026.
Duas semanas depois, em 22 de maio, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) informou que o cenário climático exigia preparação antecipada para o segundo semestre. A análise apontava possibilidade de redução das chuvas e aumento das temperaturas no Norte e no Nordeste, condições que podiam intensificar a estiagem e elevar o risco de incêndios florestais.
Em junho, o primeiro boletim do Painel El Niño 2026–2027, elaborado por instituições federais, passou a acompanhar os possíveis impactos do fenômeno e recomendou monitoramento contínuo das condições meteorológicas e hidrológicas. Em setembro, a atualização do painel indicou intensificação do El Niño e maior probabilidade de chuvas abaixo da média em grande parte do Norte e do centro-norte do país no trimestre de outubro a dezembro.
Esses documentos demonstram que os órgãos técnicos já acompanhavam o risco climático meses antes do agravamento dos incêndios.
Níveis dos rios e a diferença entre vazante e emergência
O monitoramento dos rios também é fundamental para compreender a crise amazônica, mas é importante distinguir a vazante sazonal de uma situação hidrológica excepcional. Em setembro, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) informou que a descida das águas ocorria em grande parte da região, conforme esperado para o período de estiagem. A principal exceção destacada naquele boletim era a bacia do rio Branco, em Roraima, com níveis abaixo da média e das mínimas históricas para a época.
Em 8 de outubro, o SGB informou que o rio Negro estava abaixo dos 18 metros em Manaus e seguia em vazante regular. O boletim também apontou que, nas grandes calhas monitoradas, os níveis permaneciam dentro dos patamares considerados normais para o período. Isso não elimina os efeitos da falta de chuva em comunidades específicas, nem significa que todas as bacias e localidades estejam na mesma condição.
O que dizem os pesquisadores sobre o fogo na Amazônia
Pesquisadores destacam que o El Niño não provoca incêndios diretamente. O fenômeno altera as condições climáticas e pode aumentar a temperatura e reduzir a chuva em determinadas regiões. Com a vegetação mais seca, o fogo iniciado por atividades humanas encontra condições favoráveis para se espalhar e atingir áreas maiores.
Em análise publicada em agosto, a diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Ane Alencar, explicou que a ocorrência de grandes incêndios resulta da combinação entre condições climáticas extremas, material vegetal disponível para queima e fontes de ignição. A pesquisadora também chama atenção para a vulnerabilidade de áreas anteriormente queimadas e para a importância de fortalecer brigadas, fiscalização, inteligência territorial e manejo integrado do fogo.
A preocupação vai além da área diretamente atingida pelas chamas. A floresta amazônica participa do ciclo de circulação de umidade que influencia o regime de chuvas em outras partes do Brasil. A perda de vegetação e a degradação florestal podem comprometer essa função, enquanto a fumaça afeta a saúde de moradores de cidades distantes dos focos de incêndio.
Em análise publicada em 13 de outubro, o professor da Universidade de São Paulo (USP) Pedro Côrtes destacou a combinação entre o El Niño, o avanço do fogo e a degradação acumulada da floresta como fatores de preocupação para o equilíbrio climático.
O aumento dos focos, os impactos sobre a qualidade do ar e a mobilização emergencial evidenciam a gravidade do cenário. A apuração sobre eventuais falhas de gestão, porém, deve se apoiar em registros administrativos, relatórios técnicos e documentos oficiais, para que a responsabilização, se cabível, seja fundamentada em evidências. A pergunta é, a quem interessa queimar a Amazônia? O fogo não aparece sozinho.
Fontes e fotos: Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima; Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional; Agência Brasil; Cemaden; INPE; INMET; Censipam; Serviço Geológico do Brasil; IPAM; Universidade de São Paulo.
Redação Jovem Pan News Vitória







