Estado registra menor taxa de desocupação da série histórica e cria mais de 24 mil empregos formais no primeiro semestre; coordenador do Observatório do Comércio analisa cenário no De Olho na Cidade
O Espírito Santo alcançou, no segundo trimestre de 2026, um dos melhores resultados da sua história recente no mercado de trabalho. A taxa de desemprego recuou para 2,3%, o menor percentual registrado desde o início da série histórica, em 2012. O índice também manteve o estado na liderança entre as unidades da Região Sudeste e na terceira posição entre os estados brasileiros, atrás de Santa Catarina e Mato Grosso.
O cenário foi analisado no programa De Olho na Cidade, da Jovem Pan News Vitória 98.1 FM, pela jornalista Tatiana Sobreira, que entrevistou André Spalenza, coordenador do Observatório do Comércio do Connect Fecomércio-ES.
Com 2,3% de desocupação, Spalenza avaliou que o Espírito Santo já estava próximo de uma situação de pleno emprego. Segundo ele, a taxa considera as pessoas que não estavam trabalhando e procuravam uma oportunidade, incluindo casos de trabalhadores em processo de troca de emprego.
“Como 2,3%, é um número muito baixo, podemos dizer que estamos no pleno emprego, praticamente.”
Os números utilizados pelo Observatório têm como base a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
Menos de 50 mil pessoas estavam desempregadas
O resultado do segundo trimestre chamou atenção também pelo número absoluto de pessoas sem trabalho. O Espírito Santo encerrou o período com aproximadamente 49 mil pessoas desocupadas, contra 66 mil no trimestre anterior.
Foi a primeira vez, desde o início da série histórica, que o número ficou abaixo de 50 mil.
Ao mesmo tempo, a quantidade de pessoas ocupadas chegou a aproximadamente 2,080 milhões, crescimento de cerca de 71 mil trabalhadores em relação ao primeiro trimestre.
Para Spalenza, porém, o baixo desemprego não significava necessariamente aumento da renda. O coordenador chamou atenção para o avanço da informalidade e apontou a necessidade de melhorar a qualidade das ocupações, a qualificação profissional e a produtividade das empresas.
“Estamos com uma taxa de desemprego em 2,3%, porém com uma taxa de informalidade em 40%. Então quando falamos de uma taxa de desemprego baixa, infelizmente não podemos dizer que isso se reflete em uma renda mais alta.”
Informalidade chega a 40%
Se o desemprego apresentou um cenário positivo, a informalidade representou um dos principais pontos de atenção.
A taxa de trabalhadores informais subiu de 38,6% para 40% entre o primeiro e o segundo trimestre de 2026. O índice é o maior registrado no Espírito Santo desde o segundo trimestre de 2022 e supera a média nacional.
Em números absolutos, são aproximadamente 832 mil trabalhadores informais, 57 mil a mais do que no trimestre anterior.
Segundo Spalenza, a informalidade está presente em diferentes atividades, incluindo trabalhadores que prestam serviços ou comercializam produtos sem formalização como Microempreendedor Individual (MEI) ou Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). Ele citou também trabalhadores de plataformas digitais, como motoristas e entregadores de aplicativos.
O coordenador ressaltou, no entanto, que a informalidade não deve ser analisada apenas como um problema. Para ele, é necessário diferenciar atividades que poderiam estar formalizadas daquelas que surgem naturalmente em setores ainda não regulamentados.
“Nós não buscamos zerar a informalidade. Buscamos esse equilíbrio: mais trabalhadores formais e um número menor de trabalhadores informais.”
Outro ponto de atenção citado pelo pesquisador foi a relação entre informalidade, segurança financeira e acesso ao crédito. Segundo ele, o Espírito Santo tinha 88% das famílias com algum compromisso financeiro, sendo que, em média, um terço da renda era destinado ao pagamento dessas obrigações.
Nesse cenário, explicou, a falta de estabilidade na renda pode aumentar a dificuldade de acesso ao crédito e gerar maior insegurança para trabalhadores e empresas.
Espírito Santo criou mais de 24 mil empregos formais
Os dados do Caged também reforçaram o desempenho positivo do mercado de trabalho estadual.
Entre janeiro e junho de 2026, o Espírito Santo criou 24.177 empregos com carteira assinada, crescimento de 16,9% em relação ao mesmo período do ano passado.
O setor de Serviços liderou a abertura de vagas, com 9.180 novos postos. Na sequência apareceu a Agropecuária, com 7.867 empregos, impulsionada principalmente pelas contratações relacionadas à safra de café.
A Indústria abriu 3.309 vagas, enquanto a Construção criou 3.029 postos, alta de 73,1%. O Comércio registrou saldo positivo de 792 empregos.
Com esse desempenho, o estado chegou a 940.383 vínculos formais de trabalho em junho.
Para Spalenza, a geração de empregos também refletiu um processo de interiorização da economia capixaba. Segundo ele, o período de safra do café teve peso importante no resultado, mas os efeitos ultrapassaram a atividade diretamente ligada à produção.
“Quando eu falo café, não estou falando só de produção. Estou falando de tudo que movimenta comércio e serviços.”
Interior concentra quase 70% das novas vagas
Outro aspecto que chamou atenção nos números foi a distribuição regional da geração de empregos.
Dos 24.177 postos formais criados no primeiro semestre, 16.607 foram registrados em municípios do interior, o equivalente a aproximadamente 69% do total.
A Região Metropolitana da Grande Vitória respondeu pela criação de 7.570 vagas.
Vitória liderou entre os municípios, com 4.182 novos empregos, seguida por Linhares, com 2.523, e Aracruz, com 2.106.
Apesar da expansão do emprego no interior, parte significativa das vagas está relacionada à atividade agropecuária e à sazonalidade da safra de café.
Spalenza afirmou que o movimento de interiorização é relativamente recente e não significa uma perda de importância da Grande Vitória. Segundo ele, setores como comércio, serviços, indústria e construção também continuaram crescendo na região metropolitana.
“Não é que ele sai e deixa de acontecer aqui na Grande Vitória. Ele começa a pulverizar.”
Qualificação passa a ser desafio para empresas
Com o desemprego em nível historicamente baixo, outro desafio apontado durante a entrevista foi a dificuldade das empresas para encontrar trabalhadores qualificados.
Spalenza explicou que a demanda por mão de obra já era percebida em diferentes segmentos e defendeu uma aproximação maior entre empresas e instituições de qualificação profissional.
Ele citou como exemplo iniciativas em que empresas identificam os perfis profissionais necessários e instituições de ensino estruturam cursos para preparar os trabalhadores para essas vagas.
“A pessoa entra, por exemplo, num curso já se preparando para a vaga e aí você tem uma situação de ganha-ganha. A empresa precisa da mão de obra para funcionar e a pessoa precisa do emprego para se sustentar.”
Segundo o coordenador, esse processo também pode ocorrer dentro das próprias empresas, que passam a qualificar trabalhadores de acordo com suas necessidades.
Spalenza citou ainda um estudo do Observatório do Comércio chamado “Economias do Futuro”, que analisou as profissões e setores que mais cresceram entre 2016 e 2024.
Entre as áreas identificadas estão a economia digital, a economia do cuidado, ligada principalmente à saúde, a economia verde, relacionada à sustentabilidade, e a economia criativa.
No Espírito Santo, segundo o pesquisador, as áreas ligadas à tecnologia também têm relação com atividades como automação de processos, modernização da produção agrícola e expansão da conectividade no interior.
Região Metropolitana também mantém geração de empregos
Apesar do destaque do interior, a Região Metropolitana da Grande Vitória também apresentou saldo positivo na contratação de trabalhadores.
Segundo Spalenza, a região continuou registrando crescimento em setores como comércio, serviços e indústria. A diferença está no fato de que a geração de empregos passou a ocorrer de maneira mais distribuída pelo território capixaba.
O pesquisador destacou ainda que o Espírito Santo possui uma economia diversificada e fatores que favorecem a atração de empresas, como a estrutura logística e a solidez fiscal.
“O Espírito Santo hoje é um estado atrativo para as empresas de fora porque temos solidez fiscal.”
Turismo e serviços podem impulsionar o segundo semestre
Para o segundo semestre, Spalenza apontou que a tendência era de continuidade do aquecimento do mercado de trabalho, especialmente com o crescimento das atividades de comércio e serviços no período de fim de ano.
Segundo ele, as contratações temporárias tradicionalmente aumentam nessa época, principalmente em setores ligados ao comércio e aos serviços.
Essas áreas respondiam por 70,6% dos trabalhadores formais do estado.
O turismo também foi citado como um dos motores da economia capixaba. Na análise do pesquisador, atividades como hospedagem, bares, restaurantes, transporte e eventos não beneficiam apenas os visitantes, mas também movimentam a economia local e ampliam as oportunidades de trabalho.
“Turismo hoje é um motor para o Espírito Santo.”
Spalenza destacou que a expansão do setor também aumenta a necessidade de qualificação dos profissionais que trabalham diretamente com o atendimento ao turista.
Mercado de trabalho entra em nova etapa
Com o desemprego em apenas 2,3%, o Espírito Santo entrou em uma nova etapa do mercado de trabalho. Para Spalenza, o desafio passou a ser combinar o baixo desemprego com melhoria da renda, aumento da produtividade, redução da informalidade e qualificação profissional.
Segundo ele, as empresas precisam buscar ganhos de produtividade por meio de tecnologia e eficiência, enquanto os trabalhadores precisam ampliar a qualificação para conquistar melhores oportunidades e vínculos.
Na avaliação do coordenador, o mercado capixaba seguia aquecido, mas ainda havia espaço para melhorar a qualidade dos empregos e ampliar a renda dos trabalhadores.
“Temos um mercado de trabalho aquecido. Então, agora vamos trabalhar na qualificação desse emprego.”
Spalenza também explicou que a tendência para o segundo semestre não poderia ser tratada como uma previsão exata, mas como uma análise dos caminhos mais prováveis a partir dos dados disponíveis. Entre eles estava o aumento das contratações temporárias no comércio e nos serviços durante o fim do ano.
Confira a entrevista completa, disponível no canal do Youtube da Jovem Pan News Vitória 98.1 FM, clicando aqui.
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Fonte: Observatório do Comércio do Connect Fecomércio-ES, com base em dados da PNAD Contínua/IBGE e Caged e entrevista no programa De Olho na Cidade, da Jovem Pan News Vitória.
Por Tatiana Sobreira e Guilherme Pacheco, da redação da Jovem Pan News Vitória.







