Experiência em Magé, no Rio de Janeiro, mostra como um pescado antes desprezado ganhou espaço na cozinha; no Espírito Santo, marisqueiras de Marataízes também transformam partes que seriam descartadas em novos produtos
Um peixe que durante muito tempo teve pouco valor comercial está ajudando mulheres da pesca a aumentar a renda e a transformar conhecimento tradicional em oportunidade de negócio.
A experiência acontece em Magé, na Baixada Fluminense, onde mulheres da Associação de Caranguejeiros e Amigos do Mangue de Magé (ACAMM) passaram a utilizar a ubarana em receitas desenvolvidas pela chamada Cozinha das Caranguejeiras.
O peixe, antes pouco valorizado, ganhou uma nova função: virou ingrediente de pratos preparados pelas próprias mulheres da comunidade e passou a representar uma possibilidade de geração de renda.
A história chama atenção não apenas pela receita, mas pelo conceito por trás dela: dar valor ao que antes era ignorado.
E essa ideia também encontra um exemplo no Espírito Santo.
Em Marataízes, o que seria descartado vira alimento
Na comunidade do Pontal, no litoral sul capixaba, marisqueiras estão desenvolvendo uma iniciativa semelhante.
Carcaças de peixe que antes seriam descartadas estão sendo aproveitadas na produção de salgados, transformando um material sem valor comercial em alimento e fonte de renda.
A experiência foi divulgada recentemente e mostra como o conhecimento das mulheres da comunidade pode ajudar a reduzir desperdícios e criar novas oportunidades econômicas.
É uma lógica simples, mas poderosa: o que era descarte passa a ser matéria-prima. E, quando isso acontece dentro de uma comunidade pesqueira, o resultado pode significar mais renda para as famílias e maior aproveitamento do pescado.
Mulheres já são parte essencial da cadeia da pesca. No Espírito Santo, a participação feminina na atividade pesqueira vai muito além da venda do pescado.
O Incaper destaca que as mulheres têm papel importante principalmente nas etapas de beneficiamento dos produtos da pesca e da aquicultura.
Elas também atuam na extração de ostras, sururu, caranguejo e outros produtos ligados às atividades costeiras. Ou seja: muitas vezes, a mulher está presente em uma etapa fundamental para transformar o peixe ou o marisco capturado em um produto que chega ao consumidor.
O desafio é fazer com que esse trabalho também seja reconhecido como atividade econômica e gere renda diretamente para quem o realiza.
Governo do ES criou programa para fortalecer mulheres da pesca
O programa Elas no Campo e na Pesca, coordenado pela Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), em parceria com o Incaper, segue firme.
A proposta é estimular a autonomia econômica das mulheres que trabalham no campo e na pesca.
Quando o programa foi lançado, a estimativa era alcançar cerca de 2 mil trabalhadoras de municípios capixabas.
A iniciativa mostra que o fortalecimento da mulher na atividade pesqueira não depende apenas da captura do pescado. Também passa pela capacitação, pelo beneficiamento, pela comercialização e pela criação de produtos com maior valor agregado.
A ideia é parecida, mas cada comunidade encontra sua própria solução
No Rio de Janeiro, a ubarana deixou de ser vista apenas como um peixe de pouco valor e passou a fazer parte de receitas desenvolvidas pelas mulheres.
No Espírito Santo, em Marataízes, o caminho encontrado foi aproveitar carcaças de peixe para produzir salgados.
São soluções diferentes para um mesmo problema: como fazer o pescado render mais para quem vive da pesca?
A resposta passa pela criatividade e pelo conhecimento de quem está dentro da atividade.
Em vez de vender somente o pescado in natura, a comunidade pode transformar o produto, criar uma marca, desenvolver receitas e chegar diretamente ao consumidor.
Quando partes do pescado que seriam descartadas ganham uma nova utilização, diminui-se o desperdício e aumenta-se o aproveitamento do recurso que já foi retirado do mar.
É um princípio cada vez mais presente na economia: produzir mais valor utilizando melhor aquilo que já existe.
No caso da pesca artesanal, isso pode ser especialmente importante para comunidades que enfrentam dificuldades como custos de produção, informalidade, acesso ao mercado e oscilação da quantidade de pescado disponível.
A própria Secretaria de Agricultura do Espírito Santo aponta desafios como informalidade, baixa organização produtiva e dificuldade de acesso a políticas públicas no setor pesqueiro capixaba.
Uma cozinha que também é espaço de autonomia e saber
Histórias como as de Magé e Marataízes mostram que a cozinha pode ser muito mais do que o lugar onde o alimento é preparado.
Para essas mulheres, ela pode ser espaço de trabalho, empreendedorismo, preservação de saberes tradicionais e autonomia financeira. A receita nasce daquilo que elas conhecem e o ingrediente principal vem da atividade que sustenta a comunidade. E o produto final pode chegar ao consumidor com uma história que nenhum alimento industrializado consegue reproduzir da mesma maneira.
O futuro pode estar no que antes era ignorado e talvez essa seja uma das grandes oportunidades para as comunidades pesqueiras brasileiras: agregar valor ao pescado, fortalecer o trabalho feminino e fazer com que uma parcela maior da riqueza permaneça nas próprias comunidades. No mar, muita coisa pode parecer pequena ou sem importância.
Mas, quando passa pelas mãos de quem conhece a pesca, a cozinha e as necessidades da comunidade, aquilo que seria descartado pode se transformar em alimento, negócio e renda.
A experiência de Marataízes abre espaço para uma pauta ainda maior no estado: descobrir quais outros peixes, mariscos e partes do pescado capixaba são pouco valorizados ou descartados e poderiam virar novos produtos.
É uma oportunidade para unir pesca artesanal, gastronomia, sustentabilidade, empreendedorismo feminino e mostrar que, muitas vezes, a inovação não precisa vir de um grande laboratório. Ela pode nascer na cozinha de uma comunidade de pescadores.
Fontes: TC Online; Canal Rural; Governo do Espírito Santo/Seag; Incaper; informações sobre a experiência das marisqueiras de Marataízes.
Imagem: IA
Edição: Tatiana Sobreira – Jovem Pan News Vitória







