Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) investiga como a exposição a microplásticos e nanoplásticos pode interferir no funcionamento das células mamárias. Divulgado durante o Outubro Rosa, período de conscientização sobre a saúde da mulher e a prevenção do câncer de mama, o trabalho busca ampliar o conhecimento científico sobre possíveis impactos de contaminantes ambientais no organismo.

O estudo é conduzido por pesquisadores do Programa de Extensão e Pesquisa em Genética e Biotecnologia (PEPeG), sob coordenação da professora Eldamária Wolfgramm, do Departamento de Ciências Biológicas da universidade.

Microplásticos e nanoplásticos são partículas provenientes de materiais plásticos que podem entrar no organismo por diferentes vias, como ingestão, inalação e contato com produtos. Segundo a Ufes, essas partículas já foram identificadas em amostras humanas, incluindo tecido mamário e leite materno.

Pesquisa analisa respostas das células à exposição

Nos experimentos, os pesquisadores comparam células mamárias não tumorais com células de câncer de mama para verificar se elas apresentam respostas diferentes ao contato com as partículas plásticas.

A equipe avalia aspectos como sobrevivência e multiplicação celular, estresse oxidativo, inflamação e possíveis alterações no material genético. O objetivo é compreender quais processos biológicos podem ser afetados e se as respostas variam de acordo com o tipo de célula, o tamanho das partículas e a concentração utilizada nos testes.

Uma das pesquisas desenvolvidas nessa linha é a dissertação de Gabriela Pinheiro, defendida em março de 2026 no Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Ufes. O trabalho avaliou a citotoxicidade de microplásticos em diferentes linhagens celulares mamárias e investigou o potencial do resveratrol na redução de danos.

De acordo com os resultados divulgados pela universidade, nas células não tumorais houve aumento da atividade metabólica e da proliferação, além de redução dos marcadores de apoptose — processo de morte celular programada. Nas duas linhagens tumorais avaliadas, as respostas foram diferentes entre si.

Os achados indicam que, nas condições testadas em laboratório, a exposição aos microplásticos interferiu no equilíbrio entre metabolismo, proliferação e morte celular.

Estudo não comprova que microplásticos causem câncer de mama

Apesar dos resultados, a pesquisa não permite afirmar que a exposição a microplásticos cause câncer de mama. A própria equipe da Ufes ressalta que as evidências disponíveis ainda são predominantemente experimentais e que estudos realizados em células e modelos animais não reproduzem integralmente as condições de exposição e os processos que ocorrem no corpo humano.

Outro ponto investigado é a composição dos plásticos. Alguns aditivos utilizados na fabricação desses materiais podem atuar como desreguladores endócrinos, interferindo no funcionamento hormonal. Essa possibilidade é relevante para a pesquisa porque o câncer de mama é uma doença multifatorial, associada a fatores hormonais, genéticos, comportamentais e ambientais.

A universidade também destaca que a identificação dessas partículas no tecido mamário exige métodos laboratoriais específicos, como a microespectroscopia Raman. A mamografia não é um método destinado à detecção de microplásticos.

Pesquisa amplia debate sobre saúde e meio ambiente

O grupo da Ufes também reuniu estudos científicos sobre possíveis efeitos de micro e nanoplásticos na biologia da mama. Entre os mecanismos analisados na literatura estão o estresse oxidativo, alterações nas mitocôndrias, processos inflamatórios e instabilidade genômica.

A expectativa é que o avanço das pesquisas contribua para esclarecer como os contaminantes ambientais interagem com os tecidos humanos. No entanto, ainda são necessários novos estudos para compreender os efeitos dessas exposições e avaliar a relevância dos resultados experimentais para a saúde da população.

Durante o Outubro Rosa, a pesquisa acrescenta uma perspectiva científica ao debate sobre saúde mamária, sem substituir as orientações de prevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama.

Fonte e foto: Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) — estudo sobre microplásticos e células mamárias.

Edição: Tatiana Sobreira, redação Jovem Pan News Vitória

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