Índice que define repasses aos municípios capixabas confirma avanço econômico fora da capital e escancara o movimento de empresas em direção a outras cidades da Grande Vitória
A Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz-ES) divulgou nesta quarta-feira (12), no Diário Oficial do Estado, os valores provisórios do Índice de Participação dos Municípios (IPM) para 2027 — indicador que define como será repartida entre as 78 cidades capixabas a fatia do ICMS destinada aos municípios. Serra e Cariacica aparecem no topo da lista, à frente inclusive da capital Vitória, reforçando uma tendência de descentralização econômica que já vinha se desenhando nos últimos anos.
O que dizem os números
Do total arrecadado pelo estado com o Imposto sobre Mercadorias e Serviços (ICMS), 25% são distribuídos entre os municípios de acordo com o IPM. Pelos valores provisórios de 2027, a Serra continua com a maior fatia, com 14,04% do total, seguida por Cariacica, com 10,1%. Vitória aparece na terceira posição, com 9,89%, à frente de Linhares (5,57%) e Vila Velha (4,28%).
O dado chama atenção porque representa uma mudança na hierarquia regional: no IPM de 2026, divulgado em dezembro do ano passado, a Serra também liderava (14,44%), mas a segunda posição ainda era de Vitória (10,31%), com Cariacica em terceiro (9,94%). Ou seja, de um ano para o outro, Cariacica não apenas cresceu, como ultrapassou a capital no ranking.
O Valor Adicionado Fiscal (VAF) — que mede a geração de riqueza em cada município nos dois anos anteriores à apuração, neste caso 2024 e 2025 — responde por 75% da composição do índice. Completam o cálculo critérios como o Índice de Qualidade Educacional, a extensão territorial, a quantidade de propriedades rurais e a oferta de serviços de saúde. Os municípios ainda têm 30 dias para recorrer caso identifiquem inconsistências nos valores publicados.
O peso desse repasse na receita municipal não é pequeno: segundo o Anuário das Finanças dos Municípios de 2026, a cota-parte do ICMS respondeu por 16,1% da receita total das prefeituras capixabas em 2025 — uma das principais fontes de recurso para investimentos locais.
O que dizem as prefeituras
A Prefeitura de Cariacica associa o resultado ao crescimento recente da economia local. O município figura entre os cinco que mais importaram mercadorias no Brasil no primeiro semestre de 2026, e a receita municipal saltou de R$ 971 milhões para mais de R$ 1,8 bilhão no período, com cerca de R$ 1,5 bilhão direcionado a investimentos na cidade.
Segundo o prefeito Euclério Sampaio, os números refletem políticas de atração de negócios, melhoria de infraestrutura e criação de condições para que novas empresas se instalem no município — o que ele associa diretamente à geração de emprego e renda, não apenas ao resultado fiscal isolado.
Já a Prefeitura da Serra atribuiu a manutenção da liderança a um trabalho técnico contínuo de equipes fiscais, que atuam no aprimoramento das informações e no acompanhamento da arrecadação — o que, segundo o município, fortalece tanto a posição da Serra no IPM quanto sua participação geral na arrecadação estadual do ICMS. Vitória foi procurada pela reportagem de origem, mas não retornou até a publicação.
Análise: o que isso representa para a Grande Vitória
O deslocamento do topo do ranking do IPM é mais do que uma disputa estatística entre prefeituras, é o retrato de um movimento estrutural na economia da Região Metropolitana da Grande Vitória (RMGV). Historicamente, Vitória concentrava a maior fatia da geração de riqueza do estado por sediar o polo portuário, financeiro e de serviços. O fato de Serra e Cariacica hoje superarem a capital nesse indicador mostra que a atividade industrial e logística vem se deslocando para municípios com mais espaço físico, custo de instalação mais baixo e infraestrutura voltada à indústria e ao comércio exterior.
Esse movimento tem uma lógica de negócios clara. Vitória, como capital consolidada, enfrenta limitações de área disponível, custo de terreno mais alto e restrições urbanísticas mais rígidas — fatores que naturalmente empurram novas plantas industriais, centros de distribuição e operações logísticas para fora do núcleo central. Cariacica, com sua posição estratégica de acesso rodoviário e proximidade do Porto de Vitória, e a Serra, historicamente ligada aos grandes polos industriais e ao comércio atacadista, absorvem esse fluxo de investimento que antes tendia a se concentrar na capital.
Para empresas que avaliam onde se instalar no Espírito Santo, o dado funciona como um termômetro: municípios que ganham peso no VAF — a principal variável do IPM — são também os que mais geram emprego, atraem fornecedores e desenvolvem cadeias produtivas locais. Na prática, isso significa que a Grande Vitória deixa de ter um único centro de gravidade econômico e passa a operar como um arranjo mais distribuído, no qual a competitividade tributária e a infraestrutura logística de cada município pesam tanto quanto a proximidade da capital na decisão de investimento.
O resultado é um ciclo que se retroalimenta: mais empresas se instalam em municípios como Cariacica e Serra, o que aumenta o VAF local, o que por sua vez eleva a fatia do ICMS repassada a essas cidades, permitindo mais investimento em infraestrutura, o que as torna ainda mais atrativas para o próximo ciclo de instalação de empresas. Vitória, por outro lado, tende a se especializar cada vez mais em serviços de maior valor agregado, setor financeiro e administração pública, um perfil econômico diferente do industrial, mas que também compete por espaço no orçamento estadual. O que teremos pela frente? O movimento da indústria continua a ditar o ritmo da economia capixaba cada vez mais.
Fonte: Secretaria de Estado da Fazenda do Espírito Santo (Sefaz-ES) — Diário Oficial do Estado; Prefeitura de Cariacica; Prefeitura da Serra; Anuário das Finanças dos Municípios 2026. Reportagem original: ES Brasil.
Edição do texto e pesquisa: Tatiana Sobreira, redação da Jovem Pan News Vitórias







