Milhares de pessoas, majoritariamente mulheres, realizaram uma grande manifestação, na quarta-feira(3), na Argentina para expressar indignação contra o aumento dos feminicídios e cobrar do poder público ações estruturadas de combate à violência de gênero. Convocada pelo movimento feminista “Ni Una Menos” (“Nem Uma a Menos”), a mobilização nacional ocorreu sob forte comoção popular decorrente do recente assassinato de uma adolescente.
A marcha ganhou forte apelo social após o caso de Agostina Vega, de apenas 14 anos, na cidade de Córdoba. O corpo da jovem foi localizado no último fim de semana, uma semana após o registro de seu desaparecimento. Manifestantes apontam que a tragédia reflete um panorama alarmante e contínuo em todo o país, caracterizado pela ausência de políticas protetivas que correspondam de forma eficaz à gravidade da problemática.
Os atos coincidem com os 11 anos do movimento Ni Una Menos, criado em 2015 após uma série de feminicídios que mobilizou a sociedade argentina e se transformou em referência para movimentos de defesa dos direitos das mulheres em toda a América Latina.
A principal marcha ocorreu em Buenos Aires, reunindo organizações sociais, movimentos feministas, familiares de vítimas e representantes da sociedade civil. Os manifestantes pediram mais investimentos em prevenção, proteção e combate à violência contra mulheres, além de justiça para as vítimas.
Mais de 3 mil vítimas em 11 anos
Dados do registro oficial argentino mostram a dimensão do problema. Entre 3 de junho de 2015 e 24 de maio de 2026, foram contabilizadas 3.205 mortes relacionadas à violência de gênero no país.
Desse total, foram registrados 3.144 feminicídios diretos e vinculados, além de 46 transfeminicídios e travesticídios e 15 casos de instigação ao suicídio.
Os números revelam uma média alarmante: uma mulher assassinada a cada 31 horas na Argentina ao longo dos últimos onze anos.
Tentativas de feminicídio preocupam especialistas
Além dos crimes consumados, entidades de defesa dos direitos das mulheres alertam para o crescimento dos casos de tentativa de feminicídio.
Levantamento da organização Mujeres de la Matria Latinoamericana (MuMaLá) aponta que o número de tentativas de assassinato de mulheres é aproximadamente o dobro da quantidade de feminicídios efetivamente registrados no país.
Segundo a entidade, os dados evidenciam a necessidade de fortalecer mecanismos de proteção e ampliar a rede de atendimento para mulheres em situação de risco.
A violência de gênero continua sendo um dos principais desafios sociais da América Latina. Países como Brasil, México, Colômbia e Argentina mantêm índices elevados de feminicídios, apesar dos avanços legislativos registrados nos últimos anos.
Especialistas apontam que, além do endurecimento das leis, é necessário investir em educação, prevenção, acolhimento das vítimas e combate à impunidade para reduzir os índices de violência contra mulheres.
As manifestações realizadas na Argentina reforçam a pressão sobre autoridades nacionais e provinciais para a ampliação de políticas públicas voltadas à proteção feminina e ao enfrentamento da violência de gênero.
Violência contra a mulher pelo mundo
A revolta argentina ecoa levantes globais semelhantes que, motivados por episódios de extrema crueldade, sacudiram as estruturas de outras nações. Na Índia, o brutal estupro coletivo e assassinato de uma jovem estudante em um ônibus em Nova Délhi, em 2012, desencadeou protestos históricos que forçaram o governo a endurecer severamente as leis contra crimes sexuais. Já na Coreia do Sul, o estopim foi o assassinato de uma mulher perto de uma estação de metrô em Gangnam, em 2016, cometido por um homem que admitiu odiar as mulheres; o crime revelou uma profunda crise de violência de gênero e misoginia estrutural no país, gerando uma onda massiva de manifestações sob o lema do movimento #MeToo local, exigindo segurança e igualdade em uma sociedade profundamente patriarcal.
O Brasil também se mantém no radar internacional das discussões urgentes sobre os direitos das mulheres, enfrentando um cenário complexo que mistura violência física e debates legislativos intensos. O país, que amarga índices alarmantes de feminicídio, vive um momento de forte polarização institucional e social. Nesta semana, o Senado aprovou a suspensão de uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) que orientava o atendimento e o acesso ao aborto legal para crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. A medida gerou forte repercussão entre parlamentares, entidades de defesa dos direitos humanos e movimentos ligados à proteção das mulheres e crianças.
Fonte: Estado de Minas, / Agência France-Presse (AFP) / Veinticindo Se informa
Foto: Venticinco Se informa
Por Tatiana Sobreira, da Redação Jovem Pan News Vitória.






