Mesmo após quase duas décadas de vigência da Lei Seca, a combinação entre álcool e direção continua sendo um dos principais desafios para a segurança viária no Espírito Santo. O alerta foi feito pelo gerente de Fiscalização de Trânsito do Departamento Estadual de Trânsito do Espírito Santo (Detran-ES), Jederson Lobato, durante entrevista à jornalista Tatiana Sobreira no programa De Olho Na Cidade desta segunda-feira (01).

Segundo o gestor, os resultados das operações realizadas em todo o estado mostram que parte dos condutores ainda ignora os riscos e as consequências legais da prática.

“Beber e dirigir é crime. Às vezes as pessoas olham para isso como se fosse uma simples irregularidade administrativa, mas vai muito além disso”, afirmou.

Como exemplo, Lobato citou uma operação realizada na última sexta-feira (29) em pontos de fiscalização nos municípios da Serra e Linhares. Ao todo, 50 condutores foram flagrados em situações relacionadas à Lei Seca, sendo que três deles acabaram presos em flagrante por embriaguez ao volante.

De acordo com o gerente, muitos motoristas ainda acreditam que pequenas quantidades de álcool não comprometem a capacidade de dirigir. No entanto, ele reforçou que não existe consumo seguro para quem pretende assumir a direção de um veículo.

“Nenhuma quantidade de álcool te deixa apto a dirigir”, destacou.

Álcool está presente em mais da metade das vítimas periciadas

Durante a entrevista, Jederson Lobato chamou atenção para dados levantados pela Polícia Científica do Espírito Santo. Segundo ele, estudos apontam uma forte relação entre o consumo de álcool e os acidentes de trânsito registrados no estado.

“Um estudo da Polícia Científica indica que mais de 50% dos corpos de vítimas de acidentes de trânsito periciados no IML tinham presença de álcool ou drogas na corrente sanguínea.”

Para o gerente, os números evidenciam que a embriaguez ao volante continua sendo um fator determinante para ocorrências graves e fatais.

Ele também ressaltou que a legislação prevê punições severas tanto para quem é flagrado dirigindo sob efeito de álcool quanto para quem se recusa a realizar o teste do bafômetro.

Atualmente, a infração gera multa de R$ 2.937,40, suspensão do direito de dirigir por 12 meses, obrigatoriedade de curso de reciclagem e nova prova junto ao Detran. Nos casos em que a concentração de álcool ultrapassa os limites estabelecidos pela legislação ou quando há sinais evidentes de embriaguez, o motorista também responde criminalmente.

Perfil dos infratores mudou ao longo dos anos

Segundo Lobato, a percepção das equipes de fiscalização é de que houve uma mudança no perfil dos condutores flagrados nas operações da Lei Seca.

De acordo com ele, os jovens parecem demonstrar maior conscientização em comparação aos primeiros anos da legislação. Atualmente, a maioria dos motoristas autuados está concentrada na faixa etária entre 35 e 40 anos.

Para o gerente, isso demonstra que parte da população já assimilou a mensagem de que álcool e direção não combinam, mas ainda existe um grupo resistente à mudança de comportamento.

Trânsito mata mais que a violência urbana no Espírito Santo

Outro dado apresentado durante a entrevista chamou atenção para a dimensão do problema.

Segundo o Detran-ES, o Espírito Santo registrou 1.015 mortes no trânsito entre janeiro e dezembro de 2025. Desde 2024, o número de vítimas fatais em acidentes superou o total de mortes provocadas por crimes violentos no estado.

Os motociclistas representam mais da metade das vítimas fatais.

Para Lobato, os acidentes de trânsito muitas vezes são encarados apenas como estatísticas, quando na realidade envolvem famílias inteiras impactadas por perdas permanentes.

“Os números são alarmantes, mas não são só números. São pessoas.”

Fiscalização tem limites, consciência não

Ao comentar os desafios enfrentados pelos órgãos de trânsito, o gerente ressaltou que, apesar do reforço das operações, é impossível manter agentes em todos os locais onde infrações acontecem.

Por isso, ele defende que a principal ferramenta de prevenção continua sendo a conscientização dos próprios motoristas.

“A fiscalização nunca vai estar presente em todos os locais onde as infrações e os crimes de trânsito ocorrem. O que está presente nesses locais é a consciência das pessoas.”

Segundo ele, a mudança de comportamento passa também pela responsabilidade coletiva. Amigos, familiares e pessoas próximas podem desempenhar papel importante ao impedir que alguém assuma a direção após consumir bebida alcoólica.

Ações serão intensificadas em junho

Junho marca o aniversário de 18 anos da Lei Seca e, segundo o Detran-ES, as operações do programa Força pela Vida terão foco ampliado no combate à embriaguez ao volante.

A expectativa é intensificar fiscalizações em diferentes regiões do estado, especialmente durante eventos e períodos de maior circulação de pessoas.

Além das operações, o órgão continuará investindo em campanhas educativas, palestras e ações de conscientização para reforçar a mensagem de que dirigir após consumir álcool continua sendo uma das principais causas de mortes no trânsito brasileiro.

Guilherme Pacheco, da redação da Jovem Pan News Vitória

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