Estudo com mais de 7 mil participantes identificou menor probabilidade de diagnóstico de depressão entre pessoas com maior adesão a um padrão alimentar anti-inflamatório

Uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Nutrição e Saúde (PPGNS) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) identificou uma associação entre determinados padrões de alimentação e o diagnóstico de depressão em adultos. Publicado na Revista Internacional de Ciências Alimentares e Nutrição, o estudo analisou dados de 7.617 participantes do projeto Coorte de Universidades de Minas Gerais Plus (Cume+) e apontou que pessoas com maior adesão a um padrão alimentar considerado anti-inflamatório apresentaram menor probabilidade de diagnóstico do transtorno.

O professor José Luiz Rocha, nutricionista e docente do PPGNS/Ufes, explicou que a pesquisa não procura apontar um alimento específico como responsável pela prevenção da depressão. Em entrevista à jornalista Tatiana Sobreira, no programa De Olho na Cidade, da Jovem Pan News Vitória, ele destacou que a relação entre alimentação e saúde mental precisa ser observada a partir de diferentes fatores.

“Não existe um alimento ou nutriente desses que eu vou citar que isoladamente vão evitar ou reduzir, por exemplo, o risco de depressão.”

Pesquisa analisou hábitos alimentares de brasileiros

O trabalho foi conduzido pelo mestre João Vitor dos Santos, sob orientação de José Luiz Rocha, a partir de informações coletadas entre 2016 e 2022. Os participantes estavam distribuídos pelas cinco regiões do país. Entre os 7.617 integrantes analisados, 67,9% eram mulheres e 32,1% homens. Do total, 13,2% relataram diagnóstico de depressão.

Segundo Rocha, a pesquisa buscou observar a relação entre diferentes combinações de alimentos e nutrientes e a ocorrência de diagnóstico de depressão.

O professor explicou que os pesquisadores identificaram grupos com diferentes padrões de consumo. Um deles apresentou características associadas a maior probabilidade de diagnóstico, enquanto outro reunia uma maior presença de alimentos naturais e menor participação de produtos ultraprocessados.

Padrão alimentar reúne frutas, verduras e oleaginosas

Entre os alimentos mais presentes no padrão considerado anti-inflamatório estão frutas, verduras, legumes, grãos integrais e oleaginosas, como castanhas. Também aparecem nutrientes como fibras, ômega-3 e selênio.

De acordo com os dados do estudo, os participantes com maior adesão a esse padrão apresentaram cerca de 25% menos probabilidade de diagnóstico de depressão.

Rocha chama atenção, porém, para uma diferença importante: o resultado não significa que determinado alimento ou nutriente, isoladamente, tenha um efeito direto sobre a depressão.

“O que essa pesquisa traz de novidade é que nós não trabalhamos com um alimento ou nutrientes específicos e sim com o padrão, ou seja, nós verificamos a combinação de alimentos e de nutrientes que, em conjunto, tem esse efeito.”

A presença de fibras também foi destacada pelo professor durante a entrevista. Segundo ele, o funcionamento intestinal está relacionado a processos que podem participar da saúde mental.

Relação com a depressão é multifatorial

A alimentação é apenas uma das dimensões envolvidas quando o assunto é depressão. Durante a entrevista, Rocha ressaltou que o transtorno tem origem multifatorial e pode estar relacionado a diferentes aspectos da vida e da saúde.

Entre os fatores citados estão condições como obesidade e diabetes, além de questões relacionadas ao trabalho, à competitividade, às relações sociais e à forma como as pessoas se comparam umas às outras, inclusive por meio das redes sociais.

Por isso, os resultados da pesquisa não permitem afirmar que uma determinada alimentação cause ou evite a depressão.

O próprio estudo trabalha com uma relação de associação. Segundo Rocha, pesquisas futuras devem acompanhar as mudanças nos hábitos alimentares dos participantes para verificar como essas alterações podem se relacionar com o desenvolvimento de depressão e outras doenças crônicas.

Alimentação pode fazer parte do cuidado

Apesar das limitações, o professor considera que uma alimentação equilibrada pode fazer parte do cuidado de pessoas com depressão, em conjunto com outras formas de tratamento.

“Uma alimentação equilibrada com certeza é parte do tratamento.”

A orientação, no entanto, não significa substituir acompanhamento médico, psicológico ou o uso de medicamentos quando indicados. Para Rocha, a alimentação deve ser considerada dentro de um conjunto de estratégias voltadas à saúde.

Professor defende valorização da alimentação tradicional

A entrevista também abordou a mudança dos hábitos alimentares e a redução do preparo de comida em casa. Rocha contou que cresceu no interior de Minas Gerais em um ambiente no qual alimentos preparados pela própria família faziam parte da rotina.

A partir dessa experiência, ele defendeu a valorização de alimentos tradicionais e de preparações regionais, além de políticas que facilitem o acesso da população a alimentos in natura ou minimamente processados.

O professor citou ainda a importância da alimentação escolar e da aproximação entre crianças, produção local e preparo dos alimentos.

Para ele, preservar práticas alimentares tradicionais também pode ser uma forma de pensar o futuro.

“O futuro é ancestral.”

Estudo acompanha participantes para novas análises

O Cume+ é uma coorte aberta que começou em 2016 com egressos de universidades federais de Minas Gerais. A Ufes passou a integrar o projeto posteriormente, junto a instituições de outros estados.

O objetivo do estudo é acompanhar a relação entre padrões alimentares e a ocorrência de doenças crônicas não transmissíveis. A pesquisa sobre depressão representa uma das análises realizadas a partir dessa base de dados.

Os pesquisadores agora seguem acompanhando os participantes para avaliar de que maneira mudanças nos hábitos alimentares podem se relacionar com diferentes desfechos de saúde.

Confira a entrevista completa com José Luiz Rocha clicando aqui.

Por Guilherme Pacheco, da redação da Jovem Pan News Vitória

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