Mensagens encontradas no celular de um ex-agente do atleta levaram investigadores a apurar possível relação com grupo criminoso que atuava na Serra
O atacante David Corrêa, do Vasco da Gama, entrou no radar da Polícia Civil do Espírito Santo durante uma investigação sobre tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro na Serra, na Grande Vitória. Segundo os investigadores, mensagens encontradas no celular de um ex-agente do jogador levantaram a suspeita de que o atleta teria ajudado financeiramente integrantes de um grupo criminoso que atuava na região.
O material foi obtido durante a apuração de uma tentativa de homicídio ocorrida em março de 2024, no bairro Novo Porto Canoa. A vítima havia sido sequestrada por suspeita de repassar informações a uma organização rival, mas conseguiu escapar do veículo usado pelos criminosos mesmo depois de ser baleada.
A partir da identificação dos envolvidos no ataque, a Polícia Civil chegou a Edson Vander da Silva Júnior, que já foi agente de David. Preso em agosto de 2024, ele teve o celular apreendido e, segundo a investigação, o conteúdo do aparelho revelou conversas relacionadas ao tráfico e também diálogos mantidos com o jogador.
Em uma dessas conversas, Júnior teria contado a David detalhes sobre a tentativa de homicídio e informado sobre as condições da vítima. Na troca de mensagens, o atleta teria respondido: “Mereceu tomar uns tiros mesmo”, segundo o delegado Rodrigo Sandi Mori, da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Serra.
Outro diálogo analisado pelos investigadores envolve o carro utilizado no crime. Três dias depois da tentativa de homicídio, Júnior teria encaminhado a David um áudio de Ruan de Freitas Camargo Cruz, apontado pela polícia como um dos envolvidos no ataque.
De acordo com a investigação, Ruan pediu ajuda financeira para substituir o veículo usado na ação criminosa. A suspeita é de que David pudesse contribuir com dinheiro para a compra de outro automóvel, já que o carro utilizado no crime teria ficado identificado pelos investigadores.
Para a Polícia Civil, as conversas justificaram o aprofundamento das apurações sobre uma possível participação do jogador no financiamento do tráfico de drogas em Serra Dourada 3.
Investigação começou após tentativa de homicídio
O caso que deu origem à apuração aconteceu em março de 2024. Conforme a Polícia Civil, a vítima foi retirada à força de um veículo em Serra Dourada 3 e levada até Novo Porto Canoa.
No local, o homem conseguiu fugir do carro e correu, mas foi atingido por um disparo. Mesmo depois de cair no chão e fingir estar morto, ele teria sido baleado novamente nas costas.
A vítima sobreviveu e prestou depoimento aos investigadores. A principal hipótese levantada pela polícia para a tentativa de homicídio foi a suspeita de que o homem estivesse fornecendo informações para um grupo rival.
As investigações apontaram Ruan como proprietário do veículo utilizado na ação. Segundo a polícia, ele estava no banco do passageiro durante o crime e um adolescente também participava da ação.
Júnior, por sua vez, é apontado como responsável pela organização do ataque e por determinar a execução da vítima.
Os dois foram presos em agosto de 2024. Júnior foi encontrado em um apartamento localizado no bairro Itaparica, em Vila Velha.
Mensagens com referências a armas também são investigadas
Além dos diálogos sobre a tentativa de homicídio e o veículo utilizado no crime, a Polícia Civil encontrou outras conversas consideradas relevantes para a investigação.
Em uma delas, Júnior teria enviado a David uma fotografia de uma pistola. Segundo o delegado, a resposta atribuída ao jogador foi: “Tem que matar um para ver de qual é”.
A polícia também identificou outros diálogos envolvendo o atleta, mas parte do conteúdo permanece protegida por segredo de Justiça.
Segundo a Polícia Civil, os elementos encontrados no aparelho de Júnior foram compartilhados para permitir o aprofundamento das apurações sobre a possível relação de David com o grupo.
Dois celulares de David foram apreendidos
A investigação chegou diretamente ao jogador durante a Operação A Tropa, deflagrada na segunda-feira (31) pela Polícia Civil do Espírito Santo.
Equipes capixabas, com apoio de policiais do Rio de Janeiro, cumpriram um mandado de busca na residência de David, em um condomínio na Barra da Tijuca. Dois celulares do jogador foram apreendidos durante a ação.
O atleta acompanhou as buscas e, posteriormente, foi ao centro de treinamento do Vasco, em Jacarepaguá, onde também havia um mandado de busca e apreensão.
Os policiais foram recebidos por dirigentes do clube e fizeram buscas em áreas utilizadas pelo jogador, incluindo o vestiário. Segundo as informações divulgadas, nenhum material foi apreendido no CT.
A Polícia Civil agora pretende analisar o conteúdo dos aparelhos para esclarecer a natureza da relação entre David e os investigados e verificar se houve participação do atleta nas atividades criminosas apuradas.
A investigação também considera a possibilidade de envolvimento de outros jogadores profissionais e empresários com o grupo.
O que é a Operação A Tropa
A operação foi realizada pela Polícia Civil do Espírito Santo por meio do Centro de Inteligência e Análise Telemática (CIAT) e da Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos (Desarme), vinculados à Superintendência de Inteligência e Ações Estratégicas (SIAE).
Ao todo, foram expedidos quatro mandados de prisão temporária e 15 mandados de busca e apreensão.
O objetivo é investigar um suposto esquema envolvendo tráfico interestadual de drogas e armas e lavagem de dinheiro.
No caso relacionado à tentativa de homicídio, Júnior e Ruan são réus e aguardam o andamento do processo. Segundo a Polícia Civil, a ação penal contra parte dos envolvidos já foi instaurada, com etapas como a decisão de pronúncia e eventual julgamento pelo Tribunal do Júri ainda pendentes.
O que dizem David e o Vasco
O Vasco informou que acompanhou o cumprimento do mandado no centro de treinamento e que está colaborando com as autoridades.
O diretor de futebol do clube, Admar Lopes, afirmou que David continuará trabalhando normalmente e estará disponível para atuar enquanto a investigação estiver em andamento.
O jogador chegou a entrar em campo contra o Vitória, pela Copa do Brasil, na noite desta quarta-feira (2).
“Queria oficialmente comunicar em nome do Vasco, vários colegas questionaram em relação ao que ocorreu em relação ao nosso atleta David Correia, dizer que o Vasco está colaborando com as autoridades. Até haver uma resolução por parte das autoridades, o Vasco não vai tecer qualquer comentário. E dizer que o jogador continua a trabalhar normalmente nos próximos dias e está disponível para jogo”, afirmou Lopes.
A reportagem procurou as defesas dos investigados, mas não obteve retorno até a publicação. Em nota, Vasco da Gama e Vila Nova Futebol Clube informaram que estão colaborando com a Polícia Civil.
As suspeitas apresentadas pela Polícia Civil ainda são objeto de investigação. Parte dos elementos reunidos no inquérito permanece sob sigilo judicial.
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Fontes: Folha Vitória e G1 Espírito Santo
Editado por Guilherme Pacheco, da redação da Jovem Pan News Vitória







