O aumento dos diagnósticos de autismo no Brasil ampliou o debate sobre inclusão, acesso a terapias e garantia de direitos. No entanto, para milhares de famílias, o maior desafio continua sendo transformar leis em políticas públicas efetivas. Foi esse o principal tema da entrevista concedida por Pollyana Paraguassu, presidente da Associação dos Amigos da Pessoa com Autismo do Espírito Santo (AMAES), ao programa De Olho na Cidade, da Jovem Pan News Vitória.
Mãe atípica e uma das principais referências na defesa da causa no estado, Pollyana compartilhou sua trajetória pessoal junto à jornalista Tatiana Sobreira, falou sobre a expansão da instituição e fez um apelo para que a sociedade enxergue as pessoas com deficiência para além dos diagnósticos.

Durante a entrevista, Pollyana contou que sua história com o autismo começou dentro da própria família. Mãe de três filhos, ela explicou que o primogênito, Felipe, hoje com 23 anos, está dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA), além de apresentar deficiência intelectual e Síndrome do X Frágil.
Segundo ela, foi justamente essa experiência que transformou completamente sua maneira de enxergar a vida.
“Meu filho foi a grande mola propulsora da minha vida. Hoje minha preocupação também é com o outro. Não fazer apenas pelo meu filho, mas ajudar outras famílias”, explicou.
Ela afirmou que a maternidade atípica mudou sua forma de pensar, de agir e de compreender as dificuldades enfrentadas diariamente por milhares de famílias brasileiras.
AMAES ampliou atuação e hoje está presente em seis municípios
Criada para oferecer acolhimento e orientação às famílias, a AMAES expandiu sua atuação ao longo dos últimos anos e atualmente possui unidades em Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica, Viana e Aracruz.
Segundo Pollyana, o crescimento aconteceu sem perder de vista aquilo que considera essencial: oferecer atendimento com qualidade.
Ela destacou que a instituição encerrou 2025 com mais de 92 mil atendimentos realizados, conta com mais de 120 colaboradores e atende centenas de famílias em todo o Espírito Santo.
Apesar da expansão, ela reforçou que a associação continua enfrentando dificuldades financeiras e depende da combinação entre termos de fomento municipais, emendas parlamentares e doações da sociedade.
Ao comentar a realidade das famílias de pessoas com autismo, Pollyana fez críticas à distância existente entre aquilo que está previsto na legislação e o que efetivamente chega à população.
Segundo ela, o Brasil possui leis suficientes para assegurar direitos, mas falta garantir que elas sejam cumpridas.
“Meu filho tem direito? Direito a quê? Eu vivo mendigando pelo direito dos meus filhos”, afirmou.
Para a presidente da AMAES, o país precisa deixar de criar apenas políticas de governo e investir em políticas de Estado que permaneçam independentemente das mudanças de gestão.
Ela também defendeu que a construção dessas políticas aconteça com a participação das próprias famílias.
Educação e conscientização são desafios permanentes
Outro ponto destacado foi a necessidade de ampliar a conscientização sobre o autismo em toda a sociedade.
Para Pollyana, o processo de inclusão não depende apenas de professores ou profissionais da saúde, mas de toda a comunidade.
Ela defendeu que médicos, comerciantes, advogados, empresários, jornalistas, atendentes, porteiros e demais profissionais recebam orientação sobre inclusão e deficiência.
“Nós precisamos de verdadeiros educadores. Não estou falando apenas de professores. Estou falando de toda a sociedade”, destacou Pollyana.
Segundo ela, muitas situações de preconceito ainda acontecem por falta de informação, o que reforça a importância de ampliar os espaços de diálogo.
Inclusão exige estrutura e atendimento individualizado
Durante a entrevista, Pollyana também chamou atenção para os desafios enfrentados pelas escolas e pelas famílias após o diagnóstico.
Ela afirmou que a inclusão precisa ser acompanhada por estrutura adequada, profissionais preparados e atendimento individualizado.
Na avaliação da presidente da AMAES, apenas matricular uma criança em uma sala regular não garante inclusão.
“A inclusão mal feita é exclusão”, reiterou.
Ela defendeu investimentos em suporte pedagógico, adaptação das atividades escolares e qualificação contínua das equipes responsáveis pelo atendimento.
Filas, mães solo e sobrecarga emocional preocupam a associação
A presidente da AMAES também relatou a crescente demanda por atendimento especializado.
Segundo ela, muitas famílias sequer entram nas listas de espera por acreditarem que nunca conseguirão atendimento.
Pollyana revelou ainda que cerca de 83% das mães atendidas pela instituição criam seus filhos sozinhas, enfrentando sobrecarga física, emocional e financeira.
Ela afirmou que já ouviu relatos de mães em sofrimento extremo, reforçando a necessidade de ampliar o suporte oferecido às famílias.
Combate ao capacitismo passa pela informação
Outro tema abordado foi o capacitismo — preconceito contra pessoas com deficiência.
Pollyana explicou que diversas expressões ainda utilizadas no cotidiano carregam conceitos discriminatórios e que a mudança cultural depende da informação.
Ela defendeu campanhas permanentes de conscientização e lembrou que transformar uma cultura exige tempo, diálogo e educação.
“Meus sonhos não cabem em uma gaveta”
Ao fazer um balanço da própria trajetória, Pollyana afirmou que considera a AMAES um legado construído coletivamente pelas famílias atendidas.
Ela destacou que o trabalho desenvolvido ao longo dos anos ultrapassa a assistência direta e busca transformar a forma como a sociedade enxerga o autismo.
A presidente também convidou a população a conhecer a instituição, participar das campanhas solidárias, contribuir com doações e fortalecer as ações desenvolvidas pela associação em todo o Espírito Santo.
Ela encerrou a entrevista deixando uma mensagem de esperança e conscientização.
“Que possamos ser o vento a espalhar a mudança, o amor e a conscientização”, concluiu.
A entrevista completa está disponível no canal da Jovem Pan News Vitória | 98.1 FM e pode ser conferida clicando AQUI.
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Guilherme Pacheco, da redação da Jovem Pan News Vitória







